Tássia escreve a cada 15 dias, sempre nas sextas-feiras.
A Ana nunca pode

São Anas, Marianas, Joanas e fulanas. São meninas, são mulheres, são trabalhadoras comprometidas e dedicadas – até demais. Têm uma rotina tão, mas tão atribulada, que suas amigas e familiares não acreditam que seja verdade – parece coisa de filme americano. Tanto não acreditam, que continuam exigindo mais atenção do que elas podem dar; continuam julgando-as com frases como: “ela nunca pode”, “a gente não é prioridade na vida dela”, “ela não tá nem aí pra nós”, “ela tá sempre cansada”, “pra nós ela tá sempre ocupada” e etc.  Ela vai ser sempre a desligada, distante, fria... Que injustiçadas são essas Adrianas, Julianas e Lucianas.

A Cristiana costuma trabalhar, em média, 10 horas por dia. Durante o trabalho, mal tem tempo de comer uma fruta ou beber água. Quando pega uma banana, logo alguém grita pelo seu nome e a requisita para tirar uma dúvida, e a banana fica na mesa abandonada pela metade. Quando vai até a cozinha beber água, perde o rumo no caminho porque um colega a parou para falar de um projeto. Quando levanta para fazer xixi, o telefone toca e é para ela... A essas horas ela até se esqueceu que queria ir ao banheiro e vai lembrar no final do dia, quando sentir uma cólica estranha.

Assim como ela, a Daiana mal respira no trabalho. E quando chega em casa, a quantidade de vozes chamando por ela ao mesmo tempo é bem parecida com a do trabalho. Daiana já nem sabe mais se está no lar doce lar ou na empresa. Tudo parece uma coisa só. Filhos, marido, mãe e pai com colegas, chefe e gerente. Reprise? Não bastando essas vozes, quando pega o celular pela primeira vez no dia – até então só usou o da empresa, vê uma infinidade de mensagens no whatsapp não lidas, sms no celular, notificações e mensagens no Facebook e por aí vai. E então ela pensa, com certa inveja: “Como minhas amigas têm tempo pra falar no whats o dia todo?”. E lá vai ela tentar ler toda conversa à noite e comentar todos os assuntos num texto só, ou melhor, numa mensagem de áudio por estar cansada demais para digitar qualquer coisa.

Susana também tem esse probleminha com mensagens. Suas amigas sempre reclamam que ela nunca responde as mensagens e nem atende ao celular. Na verdade, a Susana tem mensagens não lidas no Face desde o ano passado. Um ano de mensagens ignoradas – não na sua totalidade, calma! As mensagens do celular, nunca lê. Tem tanta bobagem que, quando é sério, ela nem viu. Eventos no Face? Forget about it! Se fizer questão que ela vá no seu aniversário, por favor, ligue e convide (se ela atender o telefone ou retornar a chamada, é claro). E mesmo com o Face lembrando dos aniversários que a memória dela não lembra, considere que nem sempre ela vai olhar o Face.

A Giovana também vive assim, freneticamente. Lancha quando lembra, almoça correndo e compensa com os doces no final do dia. Já ta ficando gordinha, porque anda matando a academia. Fala com as amigas quando sobra um tempo (manda mensagem pelo whats no ônibus, a caminho do trabalho, quando não está de pé, por exemplo). Quando chega em casa, só consegue dar atenção para a família na hora da janta. Se a pilha de trabalho não diminui, toma banho e volta para o batente, até debaixo das cobertas. E o namorado? Ah, sim, ela ainda tem, graças a Deus e à paciência infinita dele. Ele fica ali, de boa, vendo TV, na internet, com a esperança de que ela não esteja exausta demais para namorar um pouquinho antes de cair em sono profundo e sonhar com o trabalho.

Ah, como a Silvana queria ter tempo para chegar no seu apê, depois de ir à academia, tomar um bom banho, jantar com calma e deitar na cama para ler um bom livro sem se preocupar com mais nada. Mas a Silvana cansa de chegar e ter que trabalhar mais, seja devido à sobrecarga do trabalho atual, ou porque tem um segundo ganha-pão depois do expediente, como freelancer. E o livro, a revista, o filme, a novela, o que for, vão ficando em segundo plano, afinal, quem precisa de um tempo para si hoje em dia, né? A gente precisa é do dinheiro que o trabalho paga para sobreviver (e não para viver). Do dinheiro que só paga o que é necessário todo mês. Do dinheiro que é pouco para um lazer que é caro, no caso de muitas Fabianas. E o que é pior, do dinheiro que, no caso de algumas Rosanas, até sobra, mas mal sai da conta, porque a rotina não deixa tempo livre para o lazer. Enquanto isso, Tatianas, Vivianas e Luanas seguem se culpando por serem ausentes da vida das pessoas que mais amam, pois o trabalho não deixa...