Cris escreve todas as sextas-feiras.
O caos, a vida

Porto Alegre viveu momentos de terror. Ventos a mais de 100 km/h devastaram a cidade, deixando que o caos tomasse conta. Árvores arrancadas, lixos espalhados pelas ruas, buracos e mais buracos, postes e fios de alta tensão pelo chão. Amanhecemos sem luz, apavorados com a chuva que ainda persistia e deixou famílias inteiras sem casa, sem teto, sem nada.

Foi andando por esse caos, que encontrei-me comigo. Não no hoje, mas no ontem, em muitos “ontens”. Quantas vezes situações desse tipo não nos arrebataram intimamente. Nos deixando sem chão, sem fôlego. Seja por um rompimento, por uma saudade, por uma perda. É o namoro que não deu certo. Os pais que não compreendem os filhos. Os filhos perdidos de si. A violência das ruas. A despedida. O emprego que se foi. A traição. A amizade desfeita. Um acidente grave. Uma doença arrebatadora. Olhares que deixaram de se cruzar.

Nos vemos diante de um turbilhão interior, como se uma ventania tivesse tirado tudo do lugar. Deixando o coração em pedaços e o colo alagado.

Quantas vezes choramos a chuva de um mês inteirinho em um dia. Desidratamos de nós, para com o cansaço, nos entregar ao sono, na tentativa de ao menos, recompor os caminhos do peito.

O vulcão da dor tem muitas nuances, muitos entremeios. Somos feitos disso tudo. Caímos e levantamos. Assim como os homens trabalhando depois da devastação, para colocar a cidade em ordem, limpar as ruas, tapar os buracos, restabelecer a luz.

Vejo tudo isso e tenho pra mim que quando dizem que a natureza ensina, que é sábia, que devemos cada vez mais olhar pra ela com atenção, para só assim aprender a conviver conosco e com o mundo, estão cheios de razão.

Nós, também, temos a nossa própria natureza. É da natureza do homem questionar, pensar, refletir, sentir. Ter força, ter garra. Não é da nossa natureza se entregar e quando isso acontece, é porque já estamos debilitados demais, desenganados do mundo, entregues a sorte nenhuma.

Acredito na vida, no bem, no positivo. E é com essa bandeira, que em meio aos tantos “caos", escolho seguir em frente, de alma leve e com fé na vida. Levo comigo o que venho aprendendo com essa grande MÃE de raízes fortes e galhos flexíveis. Levo comigo a certeza de ter escolhido o caminho certo.