Cris escreve todas as sextas-feiras.
Carta de despedida

Um dia, sem mais nem menos, você virou uma sombra em minha vida. Eu não conseguia te enxergar com nitidez, nada mais estava claro. O que antes era um céu azul e trazia brisa suave, tornou-se cinza, anuviado e cheio de tormentas. Nossa vida se fechou em um cadeado qualquer no tempo. Estávamos presos um ao outro, já não voávamos como antes. Nossas asas estavam pesadas e a ventania nos embolava em discussões diárias.

Até que um dia qualquer, no meio de todo esse turbilhão, fez-se o silêncio. Quando ainda havia a fala, oxigenava a chama, mas agora, nem isso. Não nos encarávamos mais, não tínhamos coragem de olhar um no olho do outro. Nos sentíamos como dois fracassados diante da vida, diante de nós, diante dos outros.

O fato é, que simplesmente, estávamos desistindo por não ter mais forças pra lutar. Entramos num inverno constante, nem o outono nos visitava, nem o sol, nem as flores da primavera, nem as estrelas amigas nos guiavam rumo a um novo horizonte. Os abraços, os carinhos, os beijos de amor, tinham ficado em alguma gaveta empoeirada do passado. Mal lembrávamos de momentos assim. Era só escuridão. Desassossego. Constrangimento.

Você antes, tão delicada, tornou-se parte de um filme de guerra. Marchava, sem dó. Pisava em minhas feridas ainda sangrando. Não poderia, eu, logo eu, estar vivendo essa ruptura. Prometi a mim mesmo que casaria uma única vez, faria família e a continuidade abrilhantaria meus dias. Mas depois desses dez anos de casados, tudo estava desmoronando, como na cena de abertura do seriado Frankie & Grace, o bolo se rompera e estávamos em queda livre, aqueles dois bonequinhos em cima do símbolo de compromisso, casamento e eternidade, despencavam do alto, colocando tudo a perder.

Como não temos mais diálogo. Nossa vida se resume a olhares desconfiados, quartos separados, refeições em horários distintos. Como tudo que existiu um dia e eu sei que existiu, se desfez. Como o peso da sombra está acabando com a minha cervical, com a minha luz, com a minha vida. Decidi escrever essa carta e dar um basta nesse jogo, soltar as amarras, jogar o cadeado fora, levantar as asas e voar para bem longe desse ninho, desse lugar que um dia foi lar, dessa vida de aparência e decadência.

Estou de partida. Essa casa não me diz mais nada, não me dá mais nada, não soma, só machuca. Estou levando comigo, aquilo de que preciso. O resto, se quiser, pode vender. Se não conseguir ficar, venda também e dividimos o que não se pode chamar de lucro. E sim de dor, quem sabe essa dor, não nos impulsione a sonhar novamente. O que eu mais quero é voltar a sonhar. Te desejo o mesmo.

Roberto.