Tássia escreve a cada 15 dias, sempre nas sextas-feiras.
Colocando o conhecimento na balança


Desde que me formei, e lá se vão alguns anos, me pergunto se devo ou não fazer pós. Na verdade, sempre pensei em fazer mestrado e pular a pós. Queria dar aulas, pois sempre admirei a arte de ensinar aquilo que se aprende, de compartilhar conhecimento. Por conta disso, nunca fui muito adepta da ideia de pós, apesar da suposta pressão do mercado por essa linha a mais no meu currículo.

Acontece que também não achava correto emendar um mestrado após a graduação, visto que, como estudante, sempre critiquei professores com experiência unicamente acadêmica. Acreditei e sigo acreditando que o que ensina mesmo é o mercado, de que é a prática que chancela a teoria. Tendo isso em conta, ainda estou adiando o mestrado. Sinto que preciso de ainda mais experiência mercadológica, e olha que atuo na área desde bem antes de me formar – a contar mais de dez anos e onze empregos, fora projetos e freelas. Sinto também que preciso encontrar um tema que me cative da mesma forma que o da minha monografia na faculdade, quando eu achava que um dia atuaria fazendo jornalismo literário.

Mas deixando o mestrado de lado, vou contar porque não fiz uma pós ainda (digo “ainda” porque creio que nenhuma decisão é definitiva). Em primeiro lugar, não fiz pós por grana. Óbvio, dinheiro é quase sempre um problema para jornalistas. As mensalidades não costumam cooperar com a minha motivação para estudar. Porém há mais que dinheiro envolvido nessa minha decisão momentânea – que já dura anos.

Quando ainda era uma estudante de jornalismo, trabalhei em muitos empregos diferentes. Da clássica assessoria de imprensa, passando por jornal e chegando a agência de publicidade. Em todos eles aprendi muito: do que fazer e do que não fazer. Aprendi técnicas jornalísticas, relacionamento com clientes e fornecedores, trabalho em equipe, networking, gestão de pessoas, de projetos, etc. A cada trabalho, novos conhecimentos para acrescentar na minha bagagem. Isso sem falar dos vários cursos que fiz, mais por curiosidade do que por desejo de acrescentar novas habilidades ao meu currículo (mas claro que isso conta). Com tudo isso, aprendi muito mais que na faculdade, sem desmerecer a importância dessa base, até porque sou super orgulhosa do meu diploma. Digo isso porque sei que a prática e os erros e acertos da rotina profissional são nossa maior escola sempre.

Nesse meio tempo, tive estagiários e amigos que estudaram nas mesmas faculdades ou com os mesmos professores que eu, e pude verificar que eles ainda estavam vendo na graduação o que eu via quando estudava. Isso me preocupava, pois a comunicação já tinha mudado bastante e eu estava precisando ensiná-los coisas que a faculdade deveria estar ensinando. É como se ainda estivessem ensinando a revelar foto com filme em um tempo de fotografia digital. Aí também verifiquei que as pós que haviam na minha área contavam com profissionais que para mim estavam defasados, acomodados, fora do mercado, com pouca experiência, ou que já haviam sido meus professores e repetiam o mesmo conteúdo das cadeiras da faculdade. Decididamente eu não iria pagar caro para ver figurinha e álbum repetido. Eu não iria escutar um professor que tinha menos experiência de mercado que eu. Isso não passava credibilidade para mim. Pode ser preconceito da minha parte, mas que seja, é meu critério de tomada de decisão.

Somou-se a isso a percepção de mercado – tanto como gestora quanto como funcionária – de que a pós no currículo não foi determinante para a escolha do candidato ideal. Quando eu recrutei, eu busquei quem tinha experiência e perfil. Quando fui recrutada, valorizaram o mesmo. Vejo amigos com pós perdendo colocações para outros mais experientes e menos estudados, e aqui não julgo se isso é certo ou errado, só constato, e apenas com base no que testemunho, não com base em pesquisas. Além disso, percebi que o fato de eu falar inglês contava mais do que ter uma pós. A matemática é simples: a pós agrega valor, mas sem o inglês você está fora do páreo de muitas vagas.

Resumo da ópera: estou vivendo num mercado que valoriza um profissional multidisciplinar. E é por isso que procuro fazer cursos diversos e buscar conhecimento de outras áreas com amigos e colegas. Que fique claro que não sou contra a pós. Só acho que antes de decidir fazer você deve se questionar das razões para isso. E também levar em conta que em cada área é um penso e uma qualidade diferentes. Na área de comunicação, que é a minha, a pós não está me garantindo aumento salarial e nem melhores colocações no mercado. Enquanto for assim, sigo temporariamente não convencida sobre fazer pós. Mas agora você me dá licença, que tenho um curso me esperando para ser feito.