Cris escreve todas as sextas-feiras.
A crise tá geral

- E aí, maluco, tudo?

- Tudo, meu véio e tu?

- Ah. Na mesma. Crise batendo nas coxa. Tá cada vez mais difícil colocar comida na mesa, pagar as conta, o aluguel do barracão. As criança só querem saber de tv por assinatura e video game. Na minha época a gente via canal normal e não precisava pagar nada a mais por isso, agora é discóveri, cartún, fóx… toda essa porra. E a mulé? Que toda a semana tem que ir na manicura, é cabelo, roupinha da moda. Cada novela nova que surge, troca todo o guarda-roupa. Maquiage, o caramba. “Ai amor, olha o modelito da Cláudia Raia. Eu necessito daquela saia. Isso só pode ser coisa de Deus." Daqui um pouco tá virando evangélica, a coitada. E eu aqui, me virando é nos trinta pra manter o padrão. Tá foda, véio.

- Nossa, meu irmão. A coisa lá em casa tá batendo na trave. Mesmo esquema. Meu filho mais velho, resolveu que qué ser músico. Tive que dar uma guitarra pro malandro. Tá na onda do acústico, pra pegar as gatinha na noite. Sabe o bar do Dorval, ali na subida do morro? Então, é lá que o moleque tá fazendo uns showzinho. Ele chama de poquete sei lá o que. Enche de gata, mas ali, mulé não paga. E ele acaba só trocando o óleo. A Marilene já avisô pra ele parar de levar as mina pra casa, por causa do Josimar, que é muito criança ainda. Mas o danado, não tá nem aí. Passa o dia inteiro ensaiando as música pra tocar no bar do Dorval. De quinta a domingo. É mole?

- Pô, meu véio. Tô falando. E os cara lá de Brasília ainda tão querendo reduzir nosso bolsa família. Aí! Não é brinquedo não. O Valdemar que fez bem. Quando a situação tava por cima da carne seca, que a gente resolveu casar e vivê de rei, ele ficou solteiro, pegando as maria-gasolina, de carrão. Não teve filho. O desgraçado fez aquele negócio de vasecto-sei-lá-o-que. Comprou apartamentinho no asfalto. Sustenta só o corpinho. Deu de grandão. Agora, tá na boa. Ele tava dizendo esses dias que a crise não pega ele. Cofre tá cheio. Não tem quinhentas boca pra alimentá. Ah, se eu tivesse ouvido o Valdemar. Tava feito. Mas não. A Juçana, gostosona, disse que só dava casando. Não sou de ferro, irmão. Botei o anel no dedo dela e fui pro abraço.

- Grande Valdemar.

- Verdade. Não é a toa que o cara é o chefe da quadrilha. Ó, ele tá dando o sinal. Vambora irmão. Tá na hora. Fuzil na mão. Deixa que eu rendo o porteiro e vocês vão de escada pros apartamento. Galera, não perde tempo com os que tiver meia boca. Mira nos mobiliário de granfino. Não tá fácil pros cara também. Partiu.