Tássia escreve a cada 15 dias, sempre nas sextas-feiras.
Dupla jornada: o expediente na empresa termina, começa o de casa

Trabalhar demais já não é “privilégio” apenas dos workaholics. No contexto atual, trabalhar muito virou normal – goste você ou não. Hoje é comum chegar na empresa antes do horário acordado para o início do expediente, já que no dia anterior não foi possível dar conta de tudo. Almoçar em 15 minutos se for preciso, para não perder tempo, é aceitável. Trabalhar depois que supostamente encerra o expediente é rotina, afinal, as reuniões durante os dois turnos matam o tempo que você teria para executar as tarefas que estão na pauta. E responde e-mail aqui, liga para o cliente ali, atualiza planilha acolá, e a cada vez que você aperta no botão de atualizar, sua caixa de entrada volta a encher de novas pendências. É pendência que não acaba mais, e as horas insistem em não se multiplicar. Suas costas insistem em doer, seus olhos não aguentam mais ficar abertos - em um breve piscar de olhos você é capaz de cochilar e até sonhar-, seu cérebro já não responde com tanta agilidade, seus movimentos são lentos. Sim, sua cota de energia do dia se esgotou. Mas não pode, ainda há trabalho. E toma café preto!

Enfim, hora de ir para a casa, terminado o trabalho ou não. A exaustão falou mais alto. O turno profissional acabou. Agora você pode chegar em casa e colocar um pijama, mas peraí... o turno pessoal recém começou. É preciso de uma dose extra de energia.

Para algumas mulheres, o tempo pós-expediente é para ir à academia, à pós-graduação, preparar a janta cuja sobra vira a marmita do dia seguinte. Mas isso acaba sendo o de menos. Há as mulheres que têm os filhos pequenos para cuidar. Têm que ajudar no dever de casa, dar banho, atenção, carinho, educar. Até então, cansativo, mas ok, isso tudo foi uma escolha delas no geral. Mas e quando as mulheres têm que administrar problemas que elas não escolheram? Pode ser uma mãe idosa que mora com ela e já necessita de cuidados especiais, um pai com Alzheimer em que é preciso estar de olho o tempo todo, um filho depressivo, um marido enfrentando o câncer, um irmão envolvido com drogas, um genro agressivo com sua filha, uma filha adolescente grávida e por aí vai a lista de situações que mais parecem novela das oito. Nossa vida é repleta de pessoas. E as pessoas necessitam de outras pessoas. Como diz o ditado, “ninguém é uma ilha”. 

Existe uma música que gosto muito que diz: “ninguém sabe a mágoa que trago no peito, quem me vê sorrindo desse jeito nem sequer sabe da minha solidão”. Quantas mulheres que ralam ao seu lado passam o dia todo sorrindo, sendo gentis com os colegas de trabalho, fazendo piadas e mantendo o bom humor? Mulheres sobre as quais você pensa: “Uau, eu queria ser tão feliz como ela”. Serão elas tão felizes assim ou apenas aprenderam a não deixar a peteca cair? Quantas aguentam esporros e pressão no trabalho e mesmo assim nunca se abalam? Muitas delas simplesmente pensam que aquilo não é nada perto do que enfrentam em casa. Elas são mulheres de fibra que os colegas nem desconfiam que têm uma vida dura fora do escritório.

Também há as lideres no trabalho. Aquelas que muitas detestam simplesmente por serem as chefes. Além de terem que lidar com os problemas da empresa e os olhares tortos e fofocas dos funcionários, ainda têm que lidar com os problemas de casa. Essas têm que tomar a frente da situação e assumir o posto de líder duas vezes. Para essas, o expediente também nunca termina. Elas são a sabe-tudo da empresa, as salvadoras da pátria. São também o porto seguro de seus familiares e amigos, a referência, o exemplo. Mas são também de carne e osso e têm sentimentos.

Elas também cansam de ser sempre as administradoras, as gestoras de pessoas na empresa familiar. Mas elas são, querendo ou não, líderes natas. E líderes não podem demonstrar seus sentimentos da mesma forma que os liderados, afinal, devem manter o equilíbrio emocional. Devem ser firmes e fortes e passar a segurança que os demais não têm. Devem ser um poço de positividade e racionalidade. E não importa se no fundo elas não sejam nada disso. Não importa se quando vão à terapia elas digam que são exatamente o contrário do que aparentam. Essas líderes, que no fundo são mulheres frágeis, sensíveis, cansadas e estressadas, são líderes acima de tudo, e, como diria Napoleão Bonaparte, um líder é um vendedor de esperança.

E este texto aparenta não ser nada motivador, certo? Mas, acredite, é. Ele quer provar para você que você é de ferro, mesmo sendo muitas vezes essa “coração mole” aí. E já que você é de ferro, não vai se importar se eu for realista e te disser que amanhã é outro dia, e que logo mais seu Outlook te receberá de braços abertos com uns 50 novos e-mails em negrito gritando que ainda não foram lidos, não é?