Cris escreve todas as sextas-feiras.
Encontros

Entrelaçados, com tamanha intensidade, naquela cama, já não sabiam quem era quem. Repentinamente, em meio aos beijos e como em uma ironia quase impossível, ele sussurra nos ouvidos da amada, “estamos tão longe um do outro”.

Ela o fita com esmo. Primeiro, o silencio, a respiração ofegante dá trégua por alguns segundos. Em seguida caem numa risada gostosa, contagiante. "Como longe?”, diz ela, "Estamos dentro, tu mora no meu coração e eu habito o teu. Quase somos um, neste abraço tu leva minha alma e eu a tua. E nossas duas almas, juntas, nos levam muito além, voamos alto, ganhamos o mundo”.

Na simplicidade dos momentos de que a vida é feita, a paz é roubada pelos pensamentos que nem sempre são reais. A ilusão é sutil e bate na porta, acometendo-nos de uma pausa que não transborda em nada aquilo que é verdadeiro. São os desvios do caminho e não o caminho em si. São os paralelos e não a jornada. É como se transitássemos muito além da nossa vida e captássemos como que por impulso a vida alheia.

Temos que ter cuidado com os nossos pensamentos. Eles podem nos trair em algum momento. Somos como antenas de rádio a captar as sintonias do mundo. Por mais que estejamos vivendo o céu, faíscas de fogo acabam por nos queimar. Não porque nos alcançam e sim porque vamos até elas, com ele, o nosso bom e velho pensamento.

Como o poeta já cantou, “a vida é a arte do encontro”. Ah, Vinícius, tuas palavras são tão cheias de sabedoria. Os encontros que até parecem casuais, mas que são desenhados desde outros tempos, nos tocam a alma com aquela intensidade do casal entrelaçado e mesmo assim nos perdemos em outras ideias, outras emoções, outros pensamentos. Seremos nós incapazes de tomar as rédeas da nossa vida? Seremos nós coadjuvantes na nossa história?

Acredito que não. Nascemos para ser protagonistas dessa linda arte de viver o encontro. Nascemos para mostrar ao mundo quem, na essência, somos. Nascemos com o objetivo de evoluir, de nos aceitarmos, para transbordar ao mundo o que trazemos na alma.

Nosso pensamento é tudo isso misturado, o ontem e o hoje. E só nos sentiremos completos quando conseguirmos estar dentro de nós mesmos. Estando, antes de mais nada, presente em cada encontro real ou sonhado, mas não no encontro ilusório, que nos arrebata o agora e nos tira o foco. Somos o que pensamos. Projetamos nossa vida a partir disso. Se nosso desejo é estar presente nos encontros da vida, precisamos acertar os ponteiros das ideias e seguir com convicção a nossa caminhada. O destino, acaba não sendo o que mais importa. A jornada é o que conta, é nela que vivemos os nossos encontros.