Tássia escreve a cada 15 dias, sempre nas sextas-feiras.
Errei, sim, e daí?

E se precisar, erro de novo. Afinal, é errando que se aprende e errar é humano, como aprendemos popularmente. Mas como assim “se precisar erro de novo”, Tássia, sua louca? Simples, se a gente não arriscar por medo do erro, não vamos transformar, inovar, evoluir. E para seguir sendo a doida das frases prontas, tem outra para a sua coleção: “Vai. E se der medo, vai assim mesmo”. É isso que quero dizer, entende? Que não podemos deixar de agir por medo de errar.

É muito recorrente vermos em empresas pessoas que não fazem nada sem antes pedir o aval do superior, sem mandar um e-mail registrando o que foi falado verbalmente e por aí vai. Isso tudo porque elas têm medo de fazer algo errado. Acontece que, dependendo do gestor, isso também pode ser mal visto, já que você passa uma imagem de insegurança. Tá, aí você vai me dizer: “Acontece que todas as vezes que eu decidi por mim mesma e fui lá e fiz, levei um esporro do meu chefe depois, simplesmente porque não falei com ele antes. Mas, Tássia, a resposta precisava ser dada imediatamente e meu chefe não estaria disponível o dia todo”.

Ok, entendo e sou solidária. Infelizmente seu gestor não é dos mais inteligentes, pois ele deveria saber que precisa ter alguém de confiança, que na sua ausência tenha respaldo para decidir por ele pelo bem da empresa.

A questão que seu chefe deveria ter levantado era: você resolveu? Ou ainda: você tinha capacidade e segurança para tomar aquela decisão sozinha? Se sim, do que ele está reclamando? Do fato de você ter feito o que você é paga para fazer? Então só posso entender que seu chefe deveria trabalhar sozinho, pois não confia em você e nem dá autonomia para os funcionários. Não deveria ele confiar mais na equipe que ele contratou?

Com base nesse retorno do seu chefe diante de uma iniciativa sua é que eu volto a falar sobre erro. Isso porque seu chefe é um bom exemplo de pessoa que enxerga erro onde não tem. Seu caso é reversível. Se seu chefe não tivesse concordado com sua resposta, você seguramente poderia voltar atrás e dizer que você seu reuniu com sua liderança para rever a situação e ele achou melhor a seguinte proposta. Pronto. Sem choro. O problema é que seu chefe enxerga sua proatividade como desrespeito a hierarquia de cargos ou processos. E aí, quem está errado nesse caso? Não é subjetivo? Por isso que costumo dizer que o problema maior do erro não está em quem supostamente errou, mas em quem condenou seu erro. Isso porque o acusador não enxergou o outro lado da atitude antes de te julgar.

E quando você faz algo de um jeito diferente porque entende que a solução será mais ágil e eficaz? Ah, cuidado, os procedimentos devem ser seguidos, lembra? Mas será que já não está mais do que não hora de rever esses padrões que burocratizam o trabalho? Não são os chefes que falam que tempo é dinheiro?

Ou ainda, caso você tenha realmente errado feio, será que ele não deveria se questionar sobre o que gerou o erro em vez de buscar culpados? Será que o erro não foi gerado por problemas da própria gestão dele? Você pode ter entendido errado. E como jornalista eu ouso afirmar que se você entendeu errado é porque não foi explicado direito. É aquela velha história: se você leu uma matéria e precisou ler de novo, é porque o jornalista não escreveu de forma clara.

Claro que aqui não estou falando de erros que podem ser fatais. Estou falando de “erros” pequenos que são vistos como grandes erros, mas que, na verdade, não o são. É a chamada tempestade em copo d’água muito comum nas empresas. São aqueles erros que não precisam gerar uma gestão de crise. “Desculpa” e “vou ter mais atenção” já resolve.

É claro que erramos e precisamos de um puxãozinho de orelha de vez em quando. A questão que este texto quis levantar é: realmente há erro por aqui? Nessas horas imagino os editores que recusaram Harry Potter vendo o sucesso dos livros hoje. O que será que havia de errado com os livros da J.K Rowling que não convenceram eles? E o que pensou o dono do jornal onde Walt Disney trabalhou ao ver aquele menino sem imaginação criar um mundo de fantasia inigualável? Quem eram afinal os errados? Já dizia Raul Seixas: “Talvez o certo para você é o errado para mim”. Ou vice-versa.