Tássia escreve a cada 15 dias, sempre nas sextas-feiras.
Extra, Extra! Mulher descobre que sua vida é ordinária

Dia desses, me peguei pensando nos rumos que as vidas dos meus colegas de escola tomaram. Por onde andavam aqueles meninos bagunceiros que faziam guerra de docinhos nos meus aniversários de criança? Que profissão escolheram? Ainda moram em Porto Alegre? São bem sucedidos? E minhas melhores amigas? E os nerds da turma? Aonde todos foram parar?

Pensava eu que os mais inteligentes deveriam estar realizados profissionalmente trabalhando em multinacionais, morando no exterior ou em cargos de direção de grandes empresas. E que os preguiçosos ou malandros, por sua vez, estariam em empregos mais modestos já que não esforçavam tanto para ser "alguém" na vida. Pensava também que os que foram meus colegas no colégio público estariam menos encaminhados do que aqueles que estudaram comigo em colégio particular, afinal, as oportunidades tendem a serem maiores para quem têm um ensino de qualidade e uma rede de contatos economicamente mais promissora.

E lá fui eu procurar esse pessoal todo na internet para comprovar minha teoria. E o que vi foi que, sim, alguns dos colegas cabeções se deram bem, um virou médico, outra passou em um concurso público que paga um alto salário, outra está sempre viajando pelo mundo a trabalho. Entretanto, nenhum deles virou o Eike Batista ou o Abílio Diniz. E, além do mais, se fizermos as contas, é a minoria que se destacou, incluindo aqui alguns malandros e preguiçosos e colegas do ensino público também, pois sempre há exceções à regra. No geral, meus colegas tiveram destinos semelhantes ao meu, se formaram na área com que mais se identificaram e trabalham duro sem ganhar o (talvez) merecido reconhecimento. Estamos todos no mesmo barco, ou seria melhor dizer, que estamos todos na mesma selva.

Tudo isso me leva a seguinte reflexão: por que insistimos em idealizar tanto um sucesso profissional baseado em vidas de famosos e não daqueles que estão perto de nós ou trilharam caminhos parecidos? Por que nos comparamos com quem tem mais e não com quem tem menos ou o mesmo que nós? Por que não entendemos que temos vidas ordinárias e que isso não deveria ser visto como vergonhoso?

Não estou dizendo aqui para não sonharmos, não lutarmos por nossos objetivos. Nada disso. Acho até que se esses exemplos distantes hollywoodianos nos inspirarem de um jeito positivo, dados os devidos descontos, são válidos. O problema é quando esses exemplos são tudo que uma pessoa tem como parâmetro de sucesso. Essas pessoas não olham para os lados e, enquanto não chegam ao estrelato, tendem a se considerarem azaradas, frustradas ou se vitimizar, fazendo o papel de coitadinhas injustiçadas pela vida. Para elas sucesso é sinônimo de dinheiro, pois não sabem o real significado da palavra.

Além do mais, muitos sonhadores não querem subir degrau a degrau e, mesmo assim, querem chegar ao topo porque acham que todos que lá estão são sortudos. Para eles fatores como dom e trabalho duro não existem. Só existe a sorte e o azar.

Lamento que eles não olhem para os lados e não lembrem que os amigos não viraram jogadores de futebol, modelos, atores ou empresários. O Pedro virou professor de educação física, a Juliana se formou em administração e muda de emprego toda hora, o Guilherme não terminou a faculdade, mas virou gerente de loja e a Carol é psicóloga. Ou seja, você não é a única que não virou a Sheryl Sandberg. Agora você já pode cair na real e começar a ralar para conquistar seus objetivos passo a passo com humildade. Caso ainda não tenham lhe informado, a vida é mais ordinária do que extraordinária.