Cris escreve todas as sextas-feiras.

São tantos os momentos que brotam em nossas vidas, tantos encontros, desencontros, armadilhas do destino, bênçãos divinas. São tantas as coincidências que irrompem nossos dias, nossos corações. As pedras no caminho, os castelos de areia e as desilusões. Os arremates, a pacífica brisa, o debruçar na janela com o horizonte inteirinho pela frente. Momentos juntos, momentos só.

E a saudade bate em todos eles.

Uma saudade do mar, da canção, de quem passou, de quem não mais voltará. Saudade do luar, do perfume do tempo, da infância, do aconchego. Do lar dentro de um abraço, do companheiro de vida curta, mas marcante pela total fidelidade.

Saudade do filho, do pai, da mãe. Do amigo de escola, das aulas de ginástica rítmica, do salto em altura, dos cem metros rasos. Saudade da ilha perdida, dos desejos inalcançáveis, como um oásis distante. Ah, se soubéssemos que oásis maior habita do lado de dentro, não perderíamos tanto tempo mirando outros alvos, que por ventura, estão fora.

Saudade de passear pelas ruas sem medo, sem anseios. De dobrar a esquina saltitante, cantando uma música do Paralamas, despreocupada com o que vem depois. Saudade de brincar no pátio, que por muito tempo esteve sem grades, sem chaves, sem cadeados. Com os amigos se chegando e sentando e conversando, sem precisar tocar a campainha. Ah! Que saudade de andar com o vidro do carro aberto, de trocar cumprimentos com a pessoa ao lado, de falar do tempo e de amenidades.

Saudade imensa da vida morna, que nos envolve como a primavera, com aquela brisa suave, sem engarrafamentos, sem ofensas, sem distúrbios. Quando bastava apenas um sorriso para desfazer uma cara feia e um bom dia, para abrandar um coração. Hoje, tenho a sensação de que nem mais o bocejo é contagiante. Sorrimos e o nada se apresenta. Até acontece, mas não como antes.

Saudade da inocência na infância, da tela quente com pipoca e brigadeiro. Da turma da praia, do fusquinha amarelo, de ouvir Australian Crawl ao luar: “Oh no not you again”. Saudade daqueles tempos em que podíamos beber o mundo feito coca-cola, com a liberdade pulsando na veia, com a sede de desbravar o universo, de mergulhar no mar de águas limpas, de beber água da torneira ou do filtro de barro. Saudade de tocar um violão nas dunas noite a dentro, tomando uma cerveja, com amigos queridos, com o amor da vida toda.

Ah! Que saudade que me dá de não ouvir falar em política 24h por dia, de não apresentar aos meus ouvidos e olhos tamanhas tragédias, de não perceber como o ser humano endureceu, acimentou, virou pedra onde nem passarinho pousa. Claro que não são todos, mas essa realidade paira no ar, nos assuntos, nos encontros.

Mas então, que essa saudade sirva de estímulo, de positivo, para que uma mudança brusca se faça. Para que meu filho tenha tudo isso que eu tive, livre dos quadrados, das caixas, livre da hipocrisia. Que ele possa alçar voos dentro de si para ganhar o mundo sem medo do que possa acontecer. Simplesmente com os valores que desde a barriga, já passamos para ele. Que só o amor importa, nada mais. Que o que temos de mais valioso não se compra. Mas que o trabalho enobrece a alma. Que o outro, não importa quem seja o outro, é alguém que merece respeito, é um ser humano como ele.

Que o sorriso é um bem precioso. Que o abraço pode ser a salvação que precisamos.

Que um olhar doce pode dizimar qualquer mazela. E que ele sempre poderá contar com a gente para o que der e vier. Mesmo quando não estivermos juntos, porque suas raízes estarão alicerçadas nesses valores.