Tássia escreve a cada 15 dias, sempre nas sextas-feiras.
Quem é seu ídolo?


Tem gente que idolatra jogador de futebol, cantor, ator, modelo, político. Nunca entendi bem isso. Cansei de cruzar com gente famosa sem cogitar pedir um autógrafo. Afinal, por que eu pediria? Desculpa o palavreado, mas sempre penso da seguinte forma: “Ele caga que nem eu”. Enfim, não vejo por que ser fã de quem mal conheço. Enxergo esses personagens públicos como pessoas comuns - que são - fazendo seu trabalho.

Meus ídolos são outros. Outros tipos de pessoas comuns. Um deles conheço bem e admiro mesmo com seus defeitos – tão pequenos perto das suas qualidades. O nome dele é Hermes Gonçalves de Oliveira, conhecido pelos amigos de infância como Nenê. Ou como diria o Faustão, o filho do Seu Joaquim e da Dona Valda. Coincidentemente e felizmente, meu pai. Esse sim eu idolatro por vários motivos, que vou listar abaixo.

Mas, atenção, este texto não tem como objetivo fazer você idolatrar meu pai também – a não ser que queira. Ele foi escrito para te estimular a olhar para o lado, e não só para a TV, e ver que há outros Hermes por aí que deveriam ser mais valorizados do que os ídolos que você cultua atualmente. Bom, vamos ao que interessa. Motivos pelos quais só pediria autógrafo para o meu pai:

1. Ele é muito trabalhador e batalhador. Acorda bem cedo e dorme bem tarde. Dá duro para trazer o sustento para nossa casa. Começou a trabalhar ainda criança e saiu de casa quando adolescente para tentar a sorte. Não parou até hoje, mesmo já aposentado.

2. Esse cara de 60 e poucos anos nunca baixa a cabeça diante de nenhum problema – e não são poucos, até porque, como costumamos dizer, não há outra alternativa. Como diz uma frase que ele adora: “Não conte a Deus que tem um problema, conte ao problema que tem um Deus”.

3. Já fez de tudo um pouco. Foi professor, bancário, corretor de seguros, dono de lotérica e de restaurantes, vendedor de carros, auxiliar financeiro, representante de vendas de produtos alimentícios, vendedor de roupas e o que mais vier. E esse “fazer de tudo um pouco” ele nem faz ideia do quanto me orgulha. Gosto de gente assim, que aceita qualquer desafio que seja digno.

4. Sempre pensa em ajudar os outros. E com isso já quebrou muito a cara. Emprestou dinheiro que nunca mais devolveram, ajudou quem lhe virou as costas, e segue assim, fazendo o bem sem olhar a quem, e quem perde é só quem não reconhece. Sou dessas também.

5. Ele está quase sempre sorrindo e alegre, exceto quando fica chateado, é claro. Rir é o melhor remédio, e que bom que ele sabe disso.

6. Fala pelos cotovelos, como eu. Tem sempre uma história para contar ou uma notícia para compartilhar. Amo gente comunicativa.

7. Parece durão, mas se emociona fácil. Enche os olhos de lágrimas com histórias bonitas, seja ela do calouro de um programa de auditório, de um estranho ou de um conhecido.

8. Finge que é de ferro, mas sei que não dorme pensando em como solucionar os problemas; a cabeça não para.

9. É um gurizão. Passa horas baixando música para tocar no carro, do qual adora cuidar. Curte estar com os amigos batendo uma bolinha ou fazendo um churrasco e tomando uma bohemia. Em casa, gosta de assistir filmes e dormir com o rádio ligado. A juventude está no coração e não na idade.

10. Não mede esforços pela família. Se sacrifica para fazer os outros felizes e até esquece que a felicidade dos outros é, na verdade, ver ele feliz.

Esse é meu pai, aquele que se eu pudesse eu escolheria para todas as minhas próximas vidas. E assim como meu pai, há outros exemplos por aí que eu gostaria que as pessoas idolatrassem também. Como o homem que lê todos os dias para outro que não sabe ler, a mulher que adotou um bebê com microcefalia, o professor que abriu uma ONG após perder o filho em um acidente de trânsito, o morador de rua que devolveu a carteira do cidadão que a derrubou, o menino de rua com fome que ganhou dois hambúrgueres e resolveu guardar um para dividir, aquela senhora que criou dez filhos ensinando-os o valor do trabalho e da família e segue o baile. São tantos bons exemplos por aí que sempre me questiono por que razão as pessoas continuam com os ídolos errados.