Tássia escreve a cada 15 dias, sempre nas sextas-feiras.
Indiadas na Índia

 

Férias. Já fazia um tempo que eu não planejava férias de verdade. Mas finalmente, em outubro, esses dias tão esperados chegaram. Destino: Índia. Quando decidi ir para a terra de Shiva, Ganesha, Krishna, Durga, Brahma, Lakshmi e companhia, o plano era ter um encontro espiritual e comigo mesma. Entretanto, tudo que planejei (tá, quase tudo) eu não segui. Sendo assim, você pode excluir do meu roteiro todas as partes espirituais como ashrams, Ganges e alguns templos budistas. A louca aqui foi direto para Mumbai, e foi lá que comecei a ressignificar a expressão “indiada”.

Sai do aeroporto já me deparando com uma poluição absurda nas ruas, com um barulho infernal do trânsito e com um cheiro desagradável no ar. Vi prédios malcuidados – dentre eles um hospital que mais parecia um presídio, calçadas cobertas de lixo e algo parecido com lama, e muita pobreza refletida também na aparência das pessoas. Fiquei em hotéis caindo aos pedaços até ser acolhida na casa da minha amiga. Tomei banho gelado e dormi em quartos mofados e cheios de mosquitos. Inicialmente não consegui me comunicar em inglês com os indianos porque o sotaque deles impedia que eu compreendesse a palavra que estava sendo pronunciada. Demorei para encontrar um local onde eu me sentisse segura para comer – até agora não tenho certeza se encontrei. Tive medo de tomar a água que me ofereciam porque não sabia a origem da mesma, e não é aconselhado beber da torneira. Não me senti confiante para negociar com os motoristas de táxis ou riquixás, pois não sabia ao certo se a distância que eu percorreria seria muita ou pouca e, portanto, não sabia se a corrida seria cara ou não. Conheci um trânsito caótico sem o menor respeito à sinalização, sentido da via e buzinas substituindo o pisca (carros sem arranhões e amassados não existem).

Quando fui para Nova Dehli, as coisas melhoraram consideravelmente. Agora estava bem acolhida na casa da minha amiga. Após breves explicações dela, já me senti tranquila para pegar o metrô e o riquixá. Fiz festas sem pagar para entrar e para beber, e me diverti como nunca. Aprendi a barganhar o preço dos produtos e serviços sempre e levar pelo que eu queria pagar - e diminui assim as chances de ser passada para trás, como eles tentam o tempo todo. Comi com as mãos e no chão, peguei comida das mãos sujas de outra pessoa, e provei pratos apimentados de quase chorar - coragem. Falando em mãos sujas, entendi que para os indianos higiene não é prioridade, pois as unhas são enormes e marrons (tanto dos pés como das mãos) e eles jogam lixo no chão na maior naturalidade. Aprendi a falar algumas palavras-chave em hindi para facilitar a comunicação. Vi beleza nos templos, no sorriso das mulheres e das crianças. Conheci indianos tarados e outros muito solícitos (isso é do ser humano, e não da nacionalidade). E conheci estrangeiros incríveis. Conclui que religiosidade e espiritualidade nem sempre andam de mãos dadas como deveriam.

Agora entendo o que é um encontro espiritual de verdade na Índia. E não tem nada a ver com o que mostram os filmes e novelas. É um encontro espiritual porque lá você aprende a ter paciência com várias coisas como as mencionadas acima. Tem que ser muito evoluído espiritualmente para ter essa paciência. País de contrastes. Riqueza, pobreza, beleza, feiura, alegria e tristeza. País que me ensinou a ser grata pelo que tenho no meu Brasil, mas que me mostrou que ser grata demais e cobrar de menos como os indianos também não ajuda o país a evoluir. E que venham as próximas experiências nas férias do ano que vem.