Cris escreve todas as sextas-feiras.
Duas linhas e suas voltas

Os entremeios de duas linhas, são muitos. Esses dias aconteceu uma história muito engraçada. Uma amiga passou um cheque cruzado, com aquelas duas linhas que traziam a imposição de que deveria ser depositado. Para acordar o que estava feito, ela afirmava: é mais seguro. Agora, o que essas duas linhas ocasionaram a pessoa que o recebeu, foi tão rico em detalhes que originou essa crônica aqui.

Mesmo quando as pessoas pedem para não cruzar o cheque, quem tem o costume cruza os ouvidos. Por força do habito esquece. Por força do hábito deixa de ouvir. Por força do hábito, acaba fechada em si mesma. Precisamos de um sinal de alerta para essas forças do hábito que habitam em nós.

Voltando ao assunto, quem pegou o cheque, confiou na palavra e não notou a linha cruzada. Foi ao banco descontá-lo e nada. Dessa vez, os braços em linha reta, chocaram-se com a cabeça. O horário corria e era preciso do dinheiro vivo para uma outra negociação: material da reforma da casa. Descontos muitas vezes tem disso: exigem notas reais, ao invés de folhas em três dias.

Para não cruzar à frente do remetente pedindo a troca, a ideia era depositar o cheque no banco do cônjuge, que era o mesmo, para sacar o dinheiro em seguida, com outro cheque sem as linhas. Mas como nada na vida é simples e quando a pressa nos rodeia, acabamos por dar de cara com pessoas nada esclarecidas. A moça do banco disse que a operação não poderia ser realizada. Bateu pé! E nessa hora, discutir com a "parede" é o mesmo que nada. Não teve jeito. Toc-toc na porta do remetente para um novo cheque, agora sem precedentes.

O relógio corria. As dezesseis badaladas estavam próximas. Era preciso chegar correndo a casa do canetaço e dela partir para a agencia mais próxima. Sem mais, o trânsito complica. Obras na pista. Desvios equivocados. Cinco para as dezesseis, o novo cheque em mãos. Sorte que o banco era freguês, duas quadras do ponto de origem e pronto.
Ufa. Cheque descontado.

Agora a segunda parte da história. O banco da criatura que o esperava, já estava fechado. Como depositar o dito cujo para positivar na hora a tal da conta esperada? Chances zero.

O jeito era levar o dinheiro, nota por nota, até a loja. Apenas com um detalhe. Para isso, teria que atravessar toda a cidade. Eu disse toda a cidade mesmo. Num fim de tarde daqueles de perder as horas, com chuvas e trovoadas.

E assim foi feito. Sem saída, sem almoço, sem saco. As duas linhas que indicaram o caminho para um dia daqueles de perder o humor, figuravam na folha do cheque. Mas tem tudo a ver com os caminhos que tomamos na vida. E como eles podem ser invertidos dependendo das nossas escolhas ou de fatores externos. E como a vida é cheia de interferências.

A lição que fica: planos mirabolantes não adiantam nada. O que adianta é resolver o problema na origem. Na causa. E só!