Cris escreve todas as sextas-feiras.
Londres não merece uma pessoa como a senhora

O caso se passou durante uma dessas promoções de Natal, cujo o prêmio era uma viagem para Londres, em um dos shoppings da capital gaúcha. Certa e com objetivo, a mulher que só é delicada na aparência, mas uma leoa nas atitudes, dirigiu-se até o guichê para trocar as afamadas notas de suas últimas compras do mês pelo tal cupom a ser colocado na sedenta urna.

Uma fila de porte pequeno se fazia em sua frente. Após poucos minutos, uma moça que na verdade era um moço, a atendeu com um jeito peculiar de falar, como se estivesse com uma bolinha na boca que terminava em um biquinho ao estilo beijinho no ombro.

O papo que é regra, com perguntas e respostas já determinadas pelo edital do concurso, se segue de forma boçal. Até que em uma das notas não aparece a marca da maquininha de cartão, que neste caso teria que ser da Cielo. A moça-moço do atendimento, pede gentilmente que a mulher se dirija até a loja e pergunte, tão somente pergunte, se a máquina é da Cielo. Ela prontamente vai.

Chegando a loja, a resposta é positiva. Feliz, ela voltou ao guichê, com uma fila, agora, de porte médio, e chega até a moça-moço com a missão cumprida. Com o biquinho ela desmancha o prazer da mulher, dizendo que somente com palavras não poderia aceitar, fio de bigode já era, teria que ter uma declaração por escrito da loja. A mulher, já mais para leoa, defende a causa, sem efeito. Mas agora a briga estava comprada. Bem que podia ter uma nota para validar esta compra, com certeza daria para trocar por uns 8 cupons. No meio disso, ela apresenta uma notinha da seção de  serviços do shopping e pergunta se vale. A resposta é categórica e debochada: - Mesmo que eu coloque não vai fechar o valor.

Com sangue nas ventas, olhar arregalado e disposição para ganhar a promoção, a mulher  prontamente voltou a loja, mas antes perguntou se precisava de “certidão lavrada em cartório do céu e assinado em baixo: Deus e com firma reconhecida” como no Samba da Benção de Vinícius. Numa tentativa de descontrair a si própria.

Na loja, forneceram a tal declaração e para não deixar por menos, comprou mais uma peça de roupa, que juntamente com a nota de serviços, lhe conferiria outro cupom. Satisfeita e poderosa, ela chega ao guichê, agora com um fila de porte grande, do tipo “en-minhocada”, após longoa minutos, para em frente a moça-moço pela terceira vez, e com um risinho apresenta tudo. Cheia de razão, a atendente, que deve ter sido preparada às pressas para ocupar aquela função, diz que a seção de serviços não entra na promoção, ou seja, a nota que antes não serviria para completar o valor, agora não servia pra nada.

A mulher, num ato de ironia, começa a falar igual a moça-moço, como se estivesse com a tal bolinha na boca e com um biquinho ao estilo colar de beijinhos (mais moderno que o beijinho no ombro).

A atendente descompassada pergunta se a mulher a está imitando. A mulher responde: - Eu! Imagina! - Igualzinho.

Então, para encerrar o assunto, depois de cadastrar as notas que podiam, menos a de serviços e entregar os cupons para a mulher, ela encerra o assunto:

-    Londres não merece uma pessoa como a senhora.

(Baseada em fatos reais, ouvi a história de uma amiga esta semana. E o sorteio da promoção aconteceu nesta quarta. Minha amiga não ganhou, mas que Londres a merece, isso merece.)