Cris escreve todas as sextas-feiras.
Ser mãe não é padecer na culpa

“Bem vinda ao mundo da culpa”. Essa foi a frase que ouvi de uma amiga, quando já estava com meu bebezinho nos braços. Confesso que paralisei.

Ao longo dos meus 37 anos, consegui livrar-me das culpas que fui colecionando ao longo da vida. Livrei-me de vez. Ainda as ouço subindo as escadas da consciência, mas antes mesmo de chegarem a adentrar em meu peito, as abandono. Escolhi não vivê-las mais. Nelas moram todos os boicotes e decidi não mais me boicotar.

Encontrei na simplicidade minhas melhores escolhas. A clareza é a maior delas. Não deixo pra depois, digo aquilo que sinto. Com cautela, pois não preciso magoar ninguém com minhas verdades. Carrego comigo o respeito por mim e pelo outro, por isso a culpa não mais se cria. Não posso apropriar-me dos erros que não são meus. E nem a partir deles tomar minhas decisões. Minha vida é regida por mim e não pelo outro. Deu pra entender?

E agora, vivenciando a maternidade, não será diferente. Hoje, vivo o momento mais lindo de todos, o mais pleno. Não somente pelo filho que carrego nos braços, mas também pela família que construímos. Parece-me que o amor entre meu marido e eu alcançou novos ares, mais elevados, mais sublimes. Somos maiores em nós, estamos aqui para ele, nosso bebezinho que chegou para desvendar a nós mesmos.

Desculpem-me os que acham que ser mãe é padecer na culpa, a culpa por não conseguir fazer o filho parar de chorar, por não poder tirar a cólica com a mão ou afastar os sonhos ruins com um sopro. Mas posso garantir a vocês  que um beijo de mãe, um carinho, um aconchego pode curar tudo. Até hoje, quando minha mãe age comigo desse jeito, ela consegue, como mágica, afastar as dores que por ventura carrego na alma.

Escolho não criar meu pequeno com culpas. Para ele, desejo a libertação de sentimentos que atrasam, que nos prendem. Para ele, com todo o amor que me cabe, ensinarei sobre as coisas do mundo, as que aprendi, as que considero importantes. Ensinarei que a frustração faz parte da vida e que ela  nos faz fortes para enfrentar as desventuras desse mundão.

Brincaremos ao sol, dançaremos na chuva. Sentiremos saudade. Passaremos noites em claro por uma febre ou estudando para a prova ou ainda jogando conversa fora. No futuro, dividiremos o vinho e contarei para ele sobre minhas peripécias com seu pai. Nós três beberemos a vida e brindaremos uma amizade incondicional.

Direi a ele que o politicamente correto é uma farsa. Que ele deve trabalhar naquilo que realmente gosta, para que seu ganha pão não se torne um fardo pesado. Direi a ele que case com o coração transbordando de amor, pois essa é a forma mais certa de fazer dar certo. Que ele olhe para a pessoa amada e enxergue nela o céu, pra que juntos alcancem essa paz louca que tanto buscamos e que na dúvida pare e não siga em frente preocupado com o que os outros vão pensar, afinal de contas, os outros não irão viver a vida dele.

Quero que ele cresça sem culpas para não precisar livrar-se delas como eu. Quero que ele não as aceite como parte de sua vida. Mas quero que ele tenha responsabilidade sobre seus atos, que ele saiba que tem direitos e deveres. E que pode ser o que quiser, desde que respeite a si mesmo e ao próximo.

O apoiarei em suas escolhas e se por acaso não concordar com alguma, darei minha opinião como mãe e amiga e estarei por perto para o que o que der e vier, pois nessa hora não existe pior coisa que ouvir de alguém o famoso: “eu avisei”.

E aqui estou, rindo sozinha. Rindo de mim, pois deparo-me com tantos quereres para o meu filho que tem apenas 40 dias. Só que é impossível não olhar para seu rosto sereno enquanto dorme e não pensar em tudo isso, em todas essas páginas em branco que ele ainda tem pela frente.