Tássia escreve a cada 15 dias, sempre nas sextas-feiras.
Manifesto em defesa dos homens

Se ele tem medo, é covarde. Se ela tem medo, é sensível. Se ele chora em público, é maricas. Se ela chora em público, é sentimental. Se ele é traído, é corno. Se ela é traída, é vítima. Se ele usa rosa, é gay. Se ela usa rosa, é feminina. Se ele não quiser transar, é brocha. Se ela não quiser transar, está indisposta. Se o homem não toma a iniciativa, é fraco. Se a mulher não toma a iniciativa, é mulher direita. Se homem bate em mulher, é violento. Se mulher bate em homem, sabe se defender.

A lista é grande. Mas esses exemplos são apenas para mostrar que os homens são tão vítimas de preconceitos quanto nós mulheres. Certamente alguém vai levantar o dedo para dizer que minha comparação é rasa, que estou defendendo homens que batem em mulheres ou que estou dando exemplos que já não correspondem mais à realidade. Em parte estará certo, afinal, hoje em dia, homens usam rosa sem serem questionados sobre sua masculinidade e mulheres já pedem homens em casamento. Homens que batem em mulheres? Maria da Penha neles! E quanto a mulheres que batem em homens? Eles preferem nunca contar por vergonha em vez de medo. Nunca é demais lembrar que estou falando do senso comum, aquele que também diz que lugar de mulher é na cozinha. Como sempre friso, estamos tratando aqui de generalizações. Caso contrário, eu não falaria de assunto nenhum, pois todos têm exceções. Então, por favor, vamos seguir o baile sem mimimi, ok? Grata. Pois bem, como eu ia dizendo, nós, mulheres, atualmente, somos incentivadas a sermos guerreiras, mas podemos mostrar nossas fragilidades sem problemas. Já os homens... Ah, esses devem ser sempre e apenas os guerreiros.

Com os devidos descontos, toda essa comparação inicial é apenas para dizer que nós, mulheres, não precisamos nos vitimizar tanto para alcançarmos o lugar que almejamos. Não lembro do homem ter feito isso em nenhum momento da história. Sim, eu sou a primeira a levantar a bandeira de que é preciso direitos iguais. Mas, na boa, direitos iguais não se conquistam a ponta de faca.
Momento de reflexão: o que você ainda não alcançou em comparação aos homens e ainda quer? Eu, por exemplo, trabalho numa empresa em que os homens são minoria, vou à academia junto aos homens sem nunca ter sido desrespeitada (mesmo fazendo exercícios de glúteos em quatro apoios), voto, posso trair sem ser morta por adultério, fui à escola e à faculdade sempre com mais colegas meninas que meninos, posso concorrer a cargos políticos, posso me divorciar, posso me casar com outra mulher, posso tomar anticoncepcional... e sei que muitas das conquistas se devem ao Movimento Feminista.

Será que não se percebe que muitas mulheres extremamente gratas ao feminismo por estarem onde estão não se sentem representadas por esse feminismo radical pregado nos dias de hoje? Qual é, agora se uma mulher quiser ser mãe e dona de casa com o consentimento da família ela deve ser crucificada? E se ela quiser ser submissa ao marido por escolha ou religião, é uma coitada? Em artigo da filósofa Talyta Carvalho, publicado no jornal Folha de S. Paulo (08/03/2012), ela diz: “Não ser feminista é heresia imperdoável, e a herege deve ser silenciada. (...) O erro do feminismo foi reivindicar e falar por todas, quando, na verdade, falava apenas por algumas. De fato, casamento e maternidade não são para todas as mulheres”. Obrigada por me representar, Talyta.

Ok, vamos gritar contra a violência sexual e doméstica, vamos ultrapassar as fronteiras e lutar pelas mulheres que sofrem nas mãos de homens nos países islâmicos. Mas vamos parar de por a culpa nos homens. Não confunda ser feminista com ser misândrica (quem despreza pessoas do sexo masculino). Vivemos em uma sociedade onde muitas mulheres usam termos desrespeitosos para se referir aos homens e elogiá-los virou pecado mortal, afinal, não fazem mais que a obrigação. Os antigos gentleman, que zelavam por sua família, agora viraram pessoas desnecessárias. Quer dizer, então, que queremos que os homens nos respeitem e, por isso, vamos desrespeitá-los? Os homens que levantavam quando uma mulher entrava num ambiente, que sempre priorizavam a segurança das mulheres em caso de risco à vida (Primeiro as mulheres!), que trabalharam para nos sustentar quando o sistema econômico do país permitiu que ficássemos em casa cuidando dos filhos. Os homens como seu pai, seu irmão, seu filho.

Me declarei feminista em alguns textos, mas diante do que tenho lido e ouvido ultimamente, volto atrás. Não me defino feminista, tampouco machista (até porque não são opostos). Definitivamente, rótulos não são bem-vindos em determinados assuntos. O feminismo, para mim, se resume à igualdade de gêneros, o que está longe de acusar os homens por questões culturais seculares. Já o machismo deve ser combatido, pois afasta a igualdade de gêneros. Mas veja bem, o machismo está em empresas chefiadas por mulheres. O machismo está em famílias e não só nos homens. E, de acordo com as feministas, as piadas machistas são intoleráveis. Não sou tão mal-humorada assim, porque não me importo que digam que nem um fogão eu sei pilotar, que dirá um carro. Estão certos e eu rio junto. Nada a ponta de faca, lembra?

Vale salientar que a maioria dos mendigos do nosso país são homens, que 95% de todo o trabalho perigoso do mundo é realizado por homens e que, consequentemente, 95% deles são vítimas de acidente de trabalho, muitos fatais. Que eles se aposentam cinco anos mais tarde do que as mulheres e vivem em média oito anos a menos que nós. Além do mais, o serviço militar é obrigatório apenas para homens. Quer encarar?