Tássia escreve a cada 15 dias, sempre nas sextas-feiras.
Não estou disposta

Estamos passando por um período de crise econômica no país. E você consegue sentir no bolso mesmo que não entenda muito bem porque isso está acontecendo. Um dos reflexos da crise na sua vida é a alta dos preços no supermercado e a falta de reajuste salarial para que você consiga pagar por suas necessidades.

Some a isso a ausência de oportunidades no mercado de trabalho, ou as ofertas com salários baixíssimos incompatíveis com a função a ser exercida. Para piorar a situação, você tem que ouvir empresários dizendo por aí em alto e bom som disparates como: “Que crise? Não há crise! A crise é uma oportunidade, é um período de desafios ideal para inovarmos. E, por isso, todos nós precisamos entregar mais e ajudar a empresa a passar por esse momento”. E assim segue o sermão repetido por muitos empresários, dos grandes aos pequenos. Por aqueles que não sentem a crise porque demitem seus funcionários e não precisam mexer nas suas remunerações, por exemplo. Por eles que ao desligarem um funcionário ‘desnecessário’, sobrecarregam outro que acumula funções.

Então, meus caros senhores ricos de dinheiro e pobres de espírito, vos digo em nome de vários outros funcionários como eu que, com todo respeito que lhes é devido, nós não estamos dispostos a entregar mais do que já entregamos diariamente. Na verdade, dispostos até estaríamos se tivéssemos tempo para entregar mais. Se nossa carga horária não estivesse tão cheia por fazermos o serviço de três. Se não nos faltasse tempo para lanchar direito, ligar para a casa e ver se está tudo bem com a família, ir ao médico, ou fazer qualquer coisa que um ser humano com vida própria faria.

Estaríamos dispostos se não fossemos tratados como máquinas, se lembrassem de que somos seres humanos. Teríamos disposição se vocês, líderes exemplares que ‘sabem tudo’ de gestão de pessoas, afinal, leram muitos livros e fizeram pós-graduação, oferecessem uma contrapartida justa. “Mas estamos em crise, ou seja, não há como lhe dar um aumento salarial agora”, diz seu chefe. “Ah, sim, agora você lembrou que estamos em crise. Fale-me mais sobre isso”, você pensa (porque dizer o que pensa é proibido). E sobre reconhecimento vocês já ouviram falar? Reconhecimento não precisa ser só financeiro. Pode ser elogio, pode ser folga, pode ser flexibilidade, pode ser agradecimento. Reconhecimento não é dizer: “Parabéns, você fez tão bem o último relatório que aqui vão mais uns três que você precisa me entregar até amanhã”. Então, caros diretores e gerentes, se vocês não nos dão nada em troca, seguiremos sendo funcionários e não colaboradores. Afinal, não temos razões para colaborar mais se vocês não colaborarem conosco também.

E não pense que estão fazendo um favor nos dando um emprego. Já ouvi histórias de chefes abusivos dizendo “você deveria agradecer por ter esse emprego, porque com essa idade não é qualquer um que vai te contratar”, “o que você faz um estagiário pode fazer por bem menos”, “eu, no seu lugar, me preocuparia em dar um pouco mais para manter seu emprego por aqui”. Queridos chefes - sim, porque quem fala isso é no máximo um chefe, jamais será um líder -, vocês precisam do nosso trabalho. Sua empresa não é nada sem uma mão de obra competente, até porque geralmente vocês não entendem nada do processo de seus próprios negócios. Se não for fulano, será sicrano. Vocês podem substituir quantas pessoas quiserem, todas terão vida além do escritório, que vocês têm a obrigação - como ser humano - de entender. Isso é gestão de pessoas.

Lembram-se da pós? E vocês podem demitir todos os funcionários que não foram fabricados como você pediu, ou seja, concordando com tudo que vocês dizem e com a velocidade acima do permitido, porque quem sai perdendo são vocês. Porque inteligentes são as empresas que mantêm funcionários com muitos anos de casa e os valorizam a ponto de eles se tornarem mestres para os novatos. Vocês precisam de pessoas. E, portanto, seria mais inteligente da sua parte se vocês aprendessem a lidar com elas a ponto de elas realmente se engajarem.

A questão é: sempre demos o nosso máximo. Não precisou de crise para isso. E se não damos mais, é porque não temos mais o que dar. Tudo que era possível já foi sugado: tempo, energia, motivação. Mas, nada é suficientemente bom para vocês. Que coincidência, vocês também não são suficientemente bons para nos gerir. Aprendam, se forem capazes, que um líder é aquele que lidera pelo exemplo, pela atitude, e não pelo discurso baseado em frases prontas de bibliografias de grandes líderes da história como “Steve Jobs”, o carrasco. Você quer qualidade? Que coincidência, também queremos qualidade de vida. Onde está a troca? Você vai nos demitir? Agradecemos a sua colaboração, afinal, não estamos dispostas.