Tássia escreve a cada 15 dias, sempre nas sextas-feiras.
Obrigada. Não foi nada (?)

Volta e meia me pego pensando sobre o quanto me doo para os outros e o quanto isso me faz bem (ou não). É sabido e comprovado que, na maioria dos casos, quando ajudamos o outro, não é só ele quem ganha; nós também nos sentimos gratificados. Mas minhas vivências têm me feito desenvolver algumas teorias. Uma delas é que ao me doar para pessoas mais distantes ou até estranhas, eu me sinto mais recompensada do que quando me doo para quem está bem próximo, fisicamente ou afetivamente. Explico a seguir.

A sensação que tenho é que quanto mais próxima a pessoa é de você, mais ela enxerga suas atitudes altruístas como obrigação. É como se ela não esperasse menos vindo de você. “Ora, a Tássia é sempre tão prestativa, vou lá pedir ajuda para ela de novo, pois ela jamais vai negar”. Tá certo, sou meio tonta mesmo e penso nos outros antes de pensar em mim. A consequência disso é que essas pessoas nem cogitam retribuir. Elas só lembram de você na hora de pedir mais alguma coisinha aqui, ou outra acolá. E não adianta alguém vir com o discurso religioso de que não devemos esperar nada em troca. Ok, isso eu já sei. E não espero mesmo. Faço porque sinto que é meu dever na vida. Mas sabe, confesso que, às vezes, é muito decepcionante ver o quanto me dedico pelas pessoas e elas nem sequer reconhecem – ou, em casos piores, reconhecem, mas nem pensam em retribuir, mesmo quando a possibilidade está ali, bem ao seu alcance.

Fico aqui contando quantas noites mal dormidas eu tive por estar trabalhando sem parar para conseguir o dinheiro que falta, para entregar o trabalho no prazo que alguém me pediu, ou ainda contando os dias que abri mão de coisas minhas para fazer coisas para os outros. E enquanto eu estava lá, com dor nas costas e sono, as pessoas por quem eu estava ali ralando, estavam no 10º sono, ou vendo TV, ou sei lá o quê. Já fiz TCC para quem não fazia ideia do que estava fazendo da vida, enquanto essa pessoa não fazia nada; já fiz trabalhos para quem estava sem tempo, mesmo quando eu mesma mal tinha tempo para mim; já paguei contas para quem não tinha dinheiro, mesmo que o dinheiro nunca estivesse sobrando; já emprestei sem poder, e nunca mais recebi de volta; já trabalhei muitas horas a mais, e não ganhei folga; já quebrei galhos e sai quebrada; já engoli sapos quando eu não estava errada; já me declarei e fiquei no vácuo; já chorei escondido enquanto o outro ria alto.

Se eu fui capaz de fazer pelos outros a quem tanto prezo, por que é tão difícil ver tal atitude neles? Seja em casa, entre amigos ou no trabalho, será que não prezam por mim o mesmo que prezo por eles? Quem vai fazer um trabalhão para mim? Quem vai me emprestar dinheiro quando eu precisar muito? Quem vai me quebrar galhos? Quem vai me perdoar quando eu não tiver razão? Quem vai retribuir?

É por isso que digo que quando me doo por quem não conheço me sinto mais gratificada. O cachorro que ajudei, nunca mais vi, mas ganhei lambidas de gratidão; a senhora que me atrasou 20 minutos para o trabalho para que eu atravessasse com ela a rua e batesse um papo, nunca mais vi, mas ganhei um obrigado especial com um abraço caloroso; o menino cadeirante e com deficiência intelectual que eu dei bom dia sorrindo, nunca mais vi, mas na hora beijou minha mão e me chamou de linda; a menina que eu avisei para não sair do portão porque havia uma pessoa suspeita na rua e eu temia por ela, nunca mais vi, mas ela me agradeceu encarecidamente. Desses todos, a recompensa foi imediata. Simplesmente por uma razão: eles reconheceram e me deram algo em troca. E trocas são tão boas. Não é pecado querer isso, é?