Cris escreve todas as sextas-feiras.
Nossa paz foi roubada

Quando fazemos uma escolha, assumimos o risco, ou deveríamos assumir, sejam elas boas ou más. Assumir o risco está diretamente ligado com a escolha, o risco pode ser grande ou mínimo, pode ser para elevar, voar alto ou simplesmente, nos levar direto ao fundo do poço. Ficou claro? A vida é feita disso, diariamente. Desde o momento em que abrimos os olhos até o último pestanejar antes de dormir.

O brasileiro condenado à pena de morte e executado na última semana, fez uma escolha e assumiu o risco, e isso independe do discurso de um monte de gente, dizendo que Bali é o paraíso do surf e das drogas, que muita gente viaja até lá em busca desse tipo de emoção. Marco Archer sabia da lei, que é escancarada em avisos no aeroporto de Jakarta, lá a punição é severa para este tipo de crime. Ele sabia e assumiu o risco.

Antes de mais nada, quero esclarecer que não sou a favor da pena de morte, mas essa é a lei naquele país e ele sabia. Como contraponto, digo que também não sou a favor do uso de drogas ilícitas. Nem vem ao caso aqui a questão da legalização. O caso aqui é outro. O brasileiro, traficante de profissão, indiretamente, ou melhor, diretamente, apontou uma arma para milhares de famílias e disparou. O peso do tráfico, a dor, a vaidade, o orgulho, o egoísmo, o poder, o sangue e o vício, o acompanharam durante toda vida.

Em entrevista, em 2005, confessou ao jornalista Renan Antunes de Oliveira, que “nunca teve um emprego diferente na vida”, ele era traficante desde a adolescência. Notem a ironia.

Marco fez uma escolha errada quando ainda era muito jovem e arriscou tudo. Teve duas chances de pedido de clemência do Brasil, mas não levou. Na mesma entrevista, enquanto estava preso, o repórter descreveu que ele vivia tranquilamente em uma bela cela, com televisão, até acesso a internet ele tinha algumas vezes, boas comidas, uma namorada, um pátio particular… Enfim, o dinheiro acumulado pelos anos de tráfico, o ajudou na prisão e pasmem, ainda assim o indivíduo continuou a usar drogas, pois segundo relato do jornalista, ele respondeu a entrevista “chapado” e tinha poucos momentos de sanidade.

Enfim, o cara é um bandido, criminoso, fora da lei, sabe? E foi tratado como herói pela nossa chefe de estado, que proclamou luto de três dias pela morte dele. Me perdoem, mas eu não consigo fazer luto por este homem, enquanto no nosso país a quantidade de mortes por arma cresce numa constância absurda, além do descaso da própria população, que convive “tete-a-tete"com o consumo impressionante de drogas. Um verdadeiro abuso.

E como nada acontece por acaso, heis que num paraíso do surf, numa praia de Santa Catarina, um homem de bem, um surfista, um cara da paz, tenta dissuadir um grupo de pessoas, que como afirmou a primeira reportagem a respeito, estavam consumindo drogas num local onde tem famílias e crianças,leva três tiros fatais. Um rapaz de vinte anos e com toda uma vida de bem pela frente. Como se não bastasse, o autor dos disparos é um policial de férias nessa praia de Santa Catarina. Que discrepância, não? Teremos luto nacional pela morte do Ricardo dos Santos? O Ricardinho? A chefe de estado vai colocar a bandeira a meio mastro? Vai exigir explicações? Vai fazer alguma coisa para evitar que mais pessoas morram? Não, meus amigos, ela não vai. Porque infelizmente, vivemos em um país ainda doente, com mentes doentes habitando. Aqui, tráfico é crime leve. Aqui, tudo é tratado de forma leve. Pesado mesmo são as contas que a gente acaba pagando, com perdas enormes, para um governo que rouba muito além da grana, rouba a paz de uma nação inteira.                                                                                                                                                                                                                                                                              

E para encerrar, mudando o foco ou nem tanto, uma pergunta. Qual a real razão da nossa representante não ter comparecido a Marcha em Paris, onde cerca de cinquenta estadistas, incluindo inimigos históricos como o premiê israelense e o presidente palestino, uniram-se em repúdio aos atentados?