Tássia escreve a cada 15 dias, sempre nas sextas-feiras.
Tanto no pessoal como no profissional?

Se tem uma coisa que aprendi nesses anos de carreira é que não preciso gostar de alguém afetivamente para gostar dessa pessoa profissionalmente. O que significa que posso, sim, achar o meu colega uma “mala sem alça” e mesmo assim admirá-lo como excelente profissional. Assim como posso gostar de alguém pessoalmente e não como profissional. Ou seja, ficar com dor no coração porque um funcionário é muito legal, mas ter que o demitir porque ele vacila com frequência. Isso é possível simplesmente porque aprendi a separar as coisas. Porque não sou passional e sim racional.

Já tive colegas que eu jamais cogitaria ter como amigos, mas que eram profissionais essenciais nos locais em que trabalhei. Um era grosseiro, mas fazia tudo nos conformes e com muita coerência; outro nunca sorria e nem descia do pedestal, mas era sério também no trabalho, sendo exigente sem ser severo; um só falava sobre mulheres e promiscuidades, mas era muito competente no que fazia; e outro tinha opiniões totalmente contrárias as minhas, mas era muito produtivo.

Por outro lado, tive colegas que eu amava como amigos pelo astral, parceria, energia, mas que eram profissionais “meia-boca” por motivos diversos: um sempre chegava bem atrasado, outro trabalhava de má vontade, outro fazia mal feito, outro não aceitava opiniões diferentes, outro falava demais e atrapalhava, e outro era o maior folgado e deixava tudo para os outros fazerem. Ah, os outros...

Voltando aos exemplos primários, sobre pessoas cujos santos não batem no pessoal, mas que se admiram ou ao menos necessitam umas das outras no profissional, eu estava vendo o site da Exame esses dias, e li uma matéria muito inteligente. Ela afirmava que o fato de nos sentirmos incomodados com alguém diz mais sobre nós mesmos do que sobre o outro. O que nos leva a refletir: será que estamos sendo maduros o suficiente para separar as coisas? Estamos gerenciando bem as divergências? Ou será que estamos sendo imaturos evidenciando cada vez mais essas diferenças pessoais e minando o lado profissional?

Aprendi lendo essa matéria que maturidade profissional só pode ser comprovada quando aprendemos que o mais fácil nem sempre é o mais correto. Evitar ou boicotar um colega ou um funcionário por diferenças pessoais prejudica a si e a empresa.

Vou contar uma história para você. É uma experiência que tive que comprova essa teoria. Uma vez tive um colega de trabalho que se considerava meu chefe (mas não era, que fique bem claro!). E como ele não gostava de mim pessoalmente (explicarei a seguir o motivo), ele procurava me sabotar para justificar o quanto eu era desnecessária profissionalmente na empresa.

Uma das minhas funções era controlar o caixa da empresa. Um dia cheguei na minha sala e esse meu colega decidiu que o caixa seria responsabilidade dele e tirou a tarefa de mim. Perguntei se havia acontecido algum problema, se havia dinheiro faltando. Ele respondeu que não. Educadamente agradeci por ele ter tirado esse serviço chato de mim, o que o desarmou. Não bastando isso, quando eu chegava no trabalho pela manhã, ele estava sentado na minha mesa “consertando” meu computador (todos os dias). Oi? Meu computador estava funcionando muito bem, obrigada. Essa era a maneira que ele tinha de atrasar meu trabalho. Em um belo dia, chamei meu chefe e avisei que começaria a chegar todos os dias meia hora mais tarde para não “atrapalhar” na manutenção do meu computador. Se era guerra que ele queria, a guerra estava comprada.

Calma lá, não acaba aqui. Outra vez cheguei na empresa e havia uma caricatura minha no meu computador. Tirei e joguei no lixo. Ele me perguntou se eu tinha me sentido ofendida, porque era apenas uma brincadeira. Respondi que só quem brinca comigo são meus amigos, o que não era o caso dele. Não estava ofendida, estava apenas o achando infantil. Houve uma semana em que ele me mandou e-mail todos os dias depois do almoço contabilizando os minutos em que cheguei atrasada, que variavam de 2 a 5 minutos. Obviamente que eu nem respondia. Caso contrário eu contabilizaria os dias que sai 5 minutos depois, que fiquei a mais ou que ele atrasou meu serviço. E a gota d’água foi quando ele começou a gritar comigo porque eu estava uma hora atrasada para o trabalho, sendo que eu havia ligado para o meu chefe na noite anterior para avisar que eu faria uma hora a mais, pois teria um compromisso pela manhã.

Mas por que contei essa história? Explico. Eu tinha uma relação muito boa com meu chefe. Boa mesmo. Tudo funcionava quando éramos só nós dois. Aí, entrou esse terceiro elemento que se sentiu incomodado comigo após ter seu orgulho masculino ferido por eu não ter cedido aos seus “encantos”. Já que pessoalmente eu não servia para ele, por que eu deveria servir profissionalmente? Acontece que ele não tinha o que falar do meu trabalho, considerando que estava tudo na mais perfeita ordem. Aí precisou achar uma desculpa para mostrar a minha incapacidade para o meu chefe. Como não conseguiu isso, começou a tentar me desestabilizar emocionalmente para que eu saísse da empresa “por livre e espontânea pressão”. Isso mostra claramente a imaturidade profissional dessa pessoa que não soube separar o meu pessoal do meu profissional.

Resumo da ópera, se eu puder lhe dar um conselho, é simples: separe as coisas. Não deixe que diferenças pessoais interfiram na qualidade e capacidade profissional dos funcionários e da empresa. Isso reflete no cliente que não tem a nada a ver com isso. E ninguém ganha com isso.