Tássia escreve a cada 15 dias, sempre nas sextas-feiras.
Seu plano A está errado

Vou fazer uma confissão: eu não tenho tempo para sonhar. Sei que isso soa triste e pessimista, mas a realidade nem sempre é tão bonita quanto nas propagandas de margarina. O que quero dizer é que não tenho tempo de sonhar acordada porque isso não paga minhas contas. Eu uso até o tempo do sono e dos sonhos para trabalhar. Não me dou ao luxo do sonho quando a realidade grita e pede socorro. Isso não quer dizer que eu não tenha sonhos. Eu tenho, só não vivo deles. Simples assim.

Os meus sonhos, esses estão aqui, andando comigo, mas eu estou com os pés no chão. Não deixo que meus sonhos me levem para o mundo da lua. Eles não precisam morrer, mas jamais serão eles que me farão viver. Vou dar exemplos. Se uma pessoa sonha em ter um restaurante, mas não tem dinheiro para abrir um e, ainda por cima, trabalha numa área bem distante disso, o que ela deveria fazer? Desistir do sonho? Resposta errada. A certa seria: ela deve continuar trabalhando, guardar parte do seu dinheiro para investir no sonho e usar o restante para sobreviver. E mais: ela deve aproveitar as horas que tem após seu trabalho para testar suas receitas e quem sabe até comercializá-las. Ela estará pagando suas contas e indo em busca de seus sonhos ao mesmo tempo. Baby steps, diria um amigo meu.

Outro exemplo. Você quer muito ser atriz. Desde pequena. Ok, é um sonho ambicioso. Sabemos que ser atriz não é fácil. Se você gastar todas as horas do seu dia tentando ser atriz, a chance de frustração é imensa, fora que você não estará recebendo nenhum tostão por tentar. Sendo assim, trabalhe como todo ser humano digno (deveria fazer) e use o tempo livre para fazer teatro, ir a agências, fazer figurações e o que mais for necessário para tentar alcançar seu objetivo. Se não deu, paciência, pelo menos você tentou.

Eu, quando criança, queria ser atriz também. Fiz teatro por sete anos, me apresentei várias vezes, e até fiz teste de novela. Isso tudo enquanto estudava e levava a sério meus estudos para o caso de não ser a próxima estrela de Chiquititas (febre na época). Também quis ser ginasta. Fiz ginástica olímpica e até participei de competições. A receita sempre foi fazer do meu sonho o plano B em vez do plano A. E é aí que mora o grande erro das pessoas, ao meu ver. Elas escolhem o caminho mais difícil como plano A, e se não o realizam se sentem frustradas, deprimidas. Gente, até a Sandy fazia faculdade enquanto cantava. Alou! Imagine se eu ficasse frustrada a toda vez que acontecesse um diálogo como esse:

- O que você faz?
- Sou jornalista.
- Trabalha na TV ou em algum jornal?
- Não.
- Ah, então faz o quê?

Oi? Devo me afundar na depressão e pensar que sou um talento desperdiçado? Nãaaaooo! O meu plano A sempre foi realista: trabalhar, ter uma vida honesta e em harmonia com as pessoas. Tem dado certo. Então por que é tão difícil as pessoas terem como plano A o que é mais fácil e real?

No meu caso, em especial, meu sonho não é material. Eu não quero ser famosa e nem rica. Eu só quero ter paz. Sim, escolhi o sonho mais difícil de todos nos tempos em que vivemos, e talvez desde sempre. Quero paz na família, no trabalho, na comunidade e no mundo. Então, como você pode observar, o meu sonho tem que ser meu plano B. Afinal, se ele for meu plano A, vou ser uma eterna frustrada. Sendo assim, no meu plano A, sigo sendo a jornalista que me propus a ser. E quanto ao plano B, enquanto vivo a realidade, segue lado a lado em ações que desempenho no meu tempo livre conforme posso. Quem sabe assim, com os pés no chão, eu não plante um pé de feijão que me leve ao céu mais rápido do que aquele que nunca plantou nenhuma semente.