Cris escreve todas as sextas-feiras.
Precisamos do tempo do sentir

Viajando numa destas manhãs pelas redes sociais, deparei-me com um desabafo de uma amiga acerca do medo. Ela contava que percebia estar colecionando medos, inclusive das estações e a partir deles outros bem mais densos. E até brincou que ia deixar os medos no pause e tocar a vida.

Ri dos “medos no pause". Porque muitas vezes, nessa correria louca, mal conseguimos tempo para sentir, seja medo, seja paz, seja o que for. E nesse entremeio, acabamos não resolvendo os problemas. Nossas nuances internas acabam impregnando de cargas pesadas como o tal medo, a culpa, os melindres, a raiva e a insegurança.

Acabamos por virar escravos de nós mesmos. Será que estamos destinados a essa vida urgente? Será que perdemos a noção do que é, realmente, respirar e vamos vivendo de folegos, nesse mar de situações diárias? Uma braçada, casa, outra braçada, trabalho, mais uma, marido, quarta braçada, filhos na escola, filhos no clube, ondas grandes, braçadas maiores, marolas, braçadas tranquilas, empresa, amigos e de novo casa.

É o inverno que foi verão. É o verão que será muito mais escaldante. É a pilha de roupas para lavar, passar. É o domingo que acaba virando dia de organizar a casa. São tarefas que se multiplicam e o tempo torna-se cada vez mais curto e torna a nos engolir. Mais uma vez escravos. Não do tempo, mas de nossas escolhas.

Sinto um prazer enorme quando estou trabalhando e não vejo o dia passar, quando estou em uma conversa demorada e não percebo que as horas voaram, quando estou entrelaçada do meu amor, quando estou sentindo a brisa beijar meu rosto, quando observo o mar, as estrelas, o pôr-do-sol e a lua. Quando estou em conexão com a espiritualidade que habita em mim. Pois simplesmente não posso deixar isso passar batido, preciso destinar meu tempo a sentir cada um desses momentos e não ser arrancada deles por um relógio que dita regras e quer controlar a minha vida. Preciso escolher.

Lá fora tudo acontece no tempo certo. A duração dos dias e das noites complementam-se e completam-se em total harmonia. O sol e a lua nos brindam num espetáculo diário. O cantar dos pássaros, o uivo dos lobos, tudo tem sua hora. Por que temos que ir contra a maré? Será que essa coleção de medos não vem disso? Dessa falta de oxigênio nos pulmões? Dessa falta do tempo de sentir?

Não percebemos, mas mesmo em movimento, estamos paralisados. Não estamos deixando a vida transbordar. Nos viramos em mil para que a água permaneça dentro do copo. Aí vem a natureza e traz a tempestade e nos dá um sacode daqueles. Somos obrigados a parar, porque faltou luz. Acendemos uma vela e somos obrigados a ficar ali, quietos. Até esbravejamos, sem ao menos nos darmos conta do presente que estamos recebendo. Um presente que nos sussurra aos ouvidos: vai com calma, sente a vida, fecha os olhos, observa a chuva, aprende a lição.