Cris escreve todas as sextas-feiras.
Reflexos da vida

Lembra daquela velha história: Um homem, que dirigia um carro a mil por hora, cortou a frente de um senhor que dirigia tranquilamente. O tal senhor, indignado, ofendeu até a quinta geração da família do motorista, sem sequer saber que aquele homem era um médico que corria para o hospital para salvar a vida de seu filho, que ele nem sabia que estava em perigo. O senhor quando soube, deu a dica: não devemos julgar uma atitude sem antes sabermos dos fatos.

Então, se o vizinho não te cumprimenta, se o motorista ao lado buzina feito um louco, se por um motivo ínfimo o “fulano" solta o verbo. Respira fundo, pois por trás de cada atitude de quem fere, principalmente o nosso ego, podemos encontrar alguém ferido ou em vias de socorrer um próximo.

Por outro lado, é interessante trazermos isso para dentro de casa, para dentro do nosso núcleo familiar. Somos experts em julgamentos precipitados, opiniões distorcidas, impaciência, intolerância. Temos a língua afiada contra os nossos. Tanto em relação aos mais velhos, quanto no que diz respeito aos mais novos. Carregamos o habito de comparar os nossos com os dos outros, como se os outros fossem perfeitos. A mãe do "ciclano" é mais legal. Ai, como eu queria que meu pai fosse que nem o do meu colega. Os filhos da vizinha são ótimos profissionais. A filha mais nova da cabeleireira já casou. Os avós do meu amigo são bem mais bacanas. E por aí vai.

Mas será que tudo são flores?

Eles também podem olhar pra nossa família e achar o mesmo. A grande verdade é que nos esquecemos ou simplesmente não sabemos a história das pessoas que fazem parte da nossa ancestralidade e nem o que se passa por dentro do coraçãozinho de nossos filhos. Nos perdemos no presente e cheios de razão, levantamos a bandeira da espada. Apontamos os dedos e criticamos com afinco.

Aqui, vou me ater aos mais velhos. Por um único motivo, entramos na vida deles mais tarde, eles já passaram por alguns bocados antes de nascermos e mesmo quando aqui chegamos, nem desconfiamos o quanto eles fizeram por nós.

Minha avó materna, que graças a Deus está viva, com quase noventa anos, sofre com certa surdez, alguma senilidade, dores no corpo e dificuldade para andar, devido ao peso. Muitas vezes, nós, netos e até mesmo os filhos, nos irritamos em ter que repetir várias vezes a mesma coisa ou com algumas atitudes dela e esquecemos de fato quem ela é.

Por trás dos anos que carrega, ela é a mulher que na década de 50, rompeu barreiras e casou com um homem desquitado, um escândalo para a época. Casou por amor. Ela morou na colônia, costurava para fora, criava galinhas, enquanto meu avô trabalhava de padeiro. Ela teve dois filhos, os criou com muito custo, juntamente com seu marido e passou para eles a noção do certo e do errado,  da moral, do bem e do mal. Ela e meu avô voltaram pra capital, montaram negócio próprio, venceram uma filha à beira da morte, que mais tarde se tornaria minha mãe e continuaram na luta.
Anos mais tarde, quando meu pai faleceu, nossa condição financeira ficou complicada. Ela e meu avô abraçaram nossa família, nos deram toda a condição, ajudaram com roupas e comida.

Minha avó corria pra cima e pra baixo comigo e com meu irmão para que minha mãe pudesse trabalhar. Ficava com a gente na praia por dois meses inteiros durante as férias. Nos amou como nunca. E até hoje nos mostra o quanto é grande seu coração.

Agora, chegou a nossa vez dar a ela a mesma condição. Não podemos apagar o passado e muito menos esquecê-lo, precisamos celebrá-lo com atitudes sinceras e muito amor. Se Deus quiser, um dia envelheceremos e também precisaremos que os mais novos sejam pacientes com nossas limitações. Pois uma coisa é certa: os “donos da razão” não existem. Vivamos com dignidade e generosidade em todos os momentos.

A tentativa, sempre, valerá a pena!