Tássia escreve a cada 15 dias, sempre nas sextas-feiras.
Síndrome de Mulher Maravilha

Ela acorda bem cedinho. Passa base, pó e rímel para não sair de cara lavada. Briga com o cabelo, que costuma ficar lindo quando não precisa, como na academia. Solto ou preso? Metade solto e metade preso, pronto. Escolhe o look do dia. Coloca vestido, ousado; bota jeans, muito despojado. Ai ai ai, é dia de reunião, “com que roupa eu vou?”. Saia midi e camisa mais básica. Pronta. Coloca a barra de cereal e a maçã na bolsa (aquela que pesa mais que o próprio corpo). Resolve colocar salto alto para ir visitar o cliente. Tchauzinho para a sapatilha amada de todos os dias. “Sabe como é, salto fica mais profissional”, pensa ela.

Chama o táxi. Nada do Easy Táxi rastrear algum veículo nas redondezas. Vai até a esquina e espera que um apareça o quanto antes para não se atrasar ainda mais, já que ela acordou atrasada. Começa a ficar nervosa. A bolsa está pesando nos ombros, a pasta com o notebook na mão esquerda, o celular na mão direita vibrando freneticamente de tantas notificações. E toca o celular bem na hora que o táxi passa. Ela estica a mão direita com celular para fazer sinal para o taxista e logo atende o celular. O taxista não é capaz de perceber que ela precisa de ajuda para abrir a porta. Irritada, ela bate com o cotovelo (única parte dos braços livre) na janela para ele se dar conta de que precisa abrir a porta. Ele abre com uma cara de mal humor, afinal, que taxista precisa de passageiros, não é mesmo? Ela respira fundo e dá um alegre “bom dia”, que ele não responde.

Começa a chover, e ela não tem guarda-chuva.  Chegando no local da reunião, percebe que o táxi não tem onde parar e precisa deixá-la a uma quadra da entrada. E lá vai ela andar pelo paralelepípedo de salto porque a calçada está em obras. E não esquecendo... com chuva. Chega no cliente e ele é um calorento que não entende que o verão acabou. E lá está ela na sala de reuniões com os pés molhados e congelando.

Duas horas de reunião e chega a hora do almoço. “Thanks God!”. Droga, o cliente faz questão de que ela almoce com ele e com os demais presentes. E lá vai ela almoçar com três homens no restaurante da empresa. Diretor, Gerente, Supervisor e ela. Ela que vê o alarme do celular tocando e lembrando “Menstruação vem hoje. Comprar absorvente”. Bingo, a menstruação veio. E adivinha? Ela está com aquela saia nova midi fashion e NUDE. Corre discretamente para o toalete e respira aliviada ao saber que a menstruação ainda não desceu. Ufa, menos mal. Na falta de absorvente para se precaver, vai papel higiênico enrolado mesmo. Na hora de se servir no buffet, ainda pensa: “Cuidado para não ter feijão nos dentes. Ok, não comer feijão”.

Volta para o trabalho. Aguenta mais algumas horas - agora já mestruada - se sentindo de fraldas de tanto papel higiênico enrolado na calcinha. O esmalte das unhas está saindo, o que a deixa extremamente irritada e desconfortável, descascando ainda mais o esmalte com os dentes. “Ah, quero casa!”. Expediente acabando e é hora de ir para o lar doce lar. Agora a parada de ônibus a espera. A moça, que quis parecer sofisticada de salto alto, está há 30 minutos na parada de pé esperando. E quando o bendito chega, está lotadinho da Silva. Ela promete nunca mais sair de salto, mas sabe que não cumpre o que promete.

Chega em casa, faz a janta e.... as unhas, porque amanhã tem mais e é melhor estar com uma boa aparência. No dia seguinte a rotina inclui fazer as malas para uma reunião de negócios em outro estado. E já que ela é mulher, vai demorar um bom tempo conferindo e conferindo de novo para não esquecer nada. Na hora de ir para o aeroporto, dá um beijo nos filhos e diz que volta logo. Saldo? Três dias longe deles, do marido e do cachorro. Esta é a vida dela. Dela que adapta à vida ao trabalho e não o trabalho à sua vida. Dela que aos olhos do chefe e dos clientes é uma profissional e tanto. Que aos olhos da família é a esposa, mãe e filha de sempre. E que aos seus próprios olhos é uma mulher como a maioria, que rala todos os dias dando o seu melhor para que um dia a recompensa profissional chegue e ela possa dizer que, no fim das contas, todo o esforço valeu a pena!  Porque não basta ser mulher, é preciso ser Mulher Maravilha!