Cris escreve todas as sextas-feiras.
Tempo de ser você

 

O espaço parecia o mesmo, mas não era. E eu mergulhada nos afazeres diários, nem me dei conta do que estava acontecendo do lado de dentro. Nuances de um querer que não me pertencia acimentava minha mente. Essas façanhas do inconsciente que permeiam os dias e insistem em nos colocar do lado de fora.
Estava inerte aos quereres que antes eram meus. Um passado beijava as minhas costas e eu só conseguia olhar para o horizonte. Só que este passado, não era alguém, não era algo, era eu mesma, eu de antes, aquela que se perdia em alegrias tão simples e que agora no correr da vida, estava intacta de muitas delas.
Lágrimas correram a minha face. Coração pesado. Mãos sedentas pela escrita. Quem sou eu? De antes e de agora? A maturidade. O crescimento. Ficamos mais apurados com o tempo? Mas que tempo é esse? O meu? O teu? O tempo do mundo?
Desconheço muitas respostas. Aprofundo-me nas minhas experiências, e delas tiro algum sentido para tudo que vem acontecendo. A pergunta correta é: quem realmente sou? Sem os adereços, sem os falsos testemunhos ou as enganações que acabam por despertar o pior de nós.
Quem sou na essência?
Olhar para trás nessas horas, é divino. Buscamos referencias de nós enquanto crianças, na pureza, sem interferências do meio ou pelo menos, com muito menos interferências. Onde não sabíamos a intenção de uma palavra mais áspera. Onde tudo parecia brincadeira.
Lembro de mim, feliz. Brincando com minhas bonecas. Cheia de mim, no primeiro dia de aula. Certeira. Determinada e sempre com um largo sorriso no rosto. Lembro de mim amante dos animais, da natureza. Do mar.
Lembro que a consciência do que era certo e errado já me acompanhava. Não conseguia me divertir com piadas e atitudes que diminuiam o outro. Esse discernimento me pertencia.
Só que a medida que vamos ganhando os dias e recebendo os tantos inputs do ambiente, acabamos atrofiando as sementes daquilo que tínhamos de melhor. Tirando a fase da adolescência e os mil hormônios que estão agindo em perfeita desarmonia, explodimos, julgamos, colocamos a língua na frente dos ouvidos. E, por consequência, nos perdemos de nós!
Tantas mazelas nos acometem, que vencer esses obstáculos parece impossível. Mas quando paramos e nos damos conta, algo lá dentro de nós brota com tamanha força, que acaba por arrancar as ervas daninhas do impulso, trazendo de volta lembranças de vida que mostram quem realmente somos. Sem conceitos pré concebidos de nós mesmos. Nossa essência reage a toda desfaçatez e a consciência vibra segura e plena.
Mas cuidado. Para manter-se nesse patamar de sapiência, é necessário não desviar do curso do rio. Não deixar que o ambiente impregne sua alma. Precisamos estar alertas e deixar florescer o amor que em nós, habita.