Cris escreve todas as sextas-feiras.
O vazio

A efemeridade da vida se confirma em cada partida e em cada retorno. Somos feitos de pó, o pó distraído que viaja no tempo e se renova ao amanhecer para se dissipar ao cair do dia.

Do pó viemos ao pó voltaremos, já diz o ditado. E se assim o é, motivos têm de sobra para permanecer por séculos e séculos. Essa é nossa única certeza: o fim.

Por mais que a passagem choque e doa, ela se repete e repete até chegar em mim. Eu também passarei um dia, para um dia voltar aqui.

E assim se faz a vida, na constância da emoção mórbida e vivaz. Nascemos para a morte e morremos para a vida. É tudo mera questão de ponto de vista.

O sentimento foi de vazio. Ao adentrar aquele lugar, que costumamos ir uma vez por semana. Eu e meu marido, sem nada saber, percebemos. O vazio transbordava por aquelas paredes. Sentamos na mesinha do canto e um moço veio nos atender. O moço e o vazio.

Como quem não quer nada, antes mesmo de fazermos o pedido, a notícia ele nos deu. O Senhor Mulita, dono daquela pizzaria tão querida, poucas quadras aqui de casa, se fora, a exatos trinta dias. Ele partiu, fez a passagem, renasceu do lado de lá e o vazio ficou.

Uma lágrima saltou dos meus olhos e outra do doce olhar azul do meu companheiro. Paramos, estáticos, o tal choque era o culpado. A mente passeou por dias atrás e buscou as memórias de outrora, buscamos aquele homem em nossos pensamentos. Nos entreolhamos, olhamos para o genro que com carinho fazia o melhor, mesmo por trás da expressão abatida.

Fizemos o pedido. A espera doía com o silêncio e o vazio. A família ali se desdobrava para manter tudo no lugar e assim estava, tudo perfeito. O acolhimento, a pizza, o sabor, a cerveja gelada. Tudo no lugar e mesmo assim o vazio participava, o vazio e a falta daquele que colocou a alma ali. O vazio já tinha se apresentado mesmo longe da notícia.

A efemeridade confirmada mais uma vez. Do pó ao pó. Noutro dia o sorriso do Sr. Mulita enchia o lugar, e agora, o nada, ele não estava mais lá. Sentimos falta. Mas a alma daqueles que ali permanecem vai preencher os espaços, porque o amor os move e isto ficou claro. Herança do pai. A força da hereditariedade. O resto é efemeridade.