Caroline escreve mensalmente, sempre nas terças-feiras.
Na velocidade da insatisfação

Há 10 anos não existiam nem Twitter nem Facebook. Há 20 anos, havia inflação galopante. Há 30 anos, não havia democracia plena no Brasil. Em 1927, a primeira companhia aérea brasileira foi criada (a Varig) e somente nos anos 2000 os vôos se popularizaram e passaram a fazer parte da rotina do “brasileiro não rico”. Avanços na área de infra-estrutura, logística, saneamento e telecomunicações se intensificaram e mudaram a geografia do país nos últimos 30 anos. Saímos de um país agrário, de analfabetos e baixa renda, para um país urbano, com aumento da qualidade, expectativa de vida e renda.

O mundo não é mais linear, simples. É difuso, ramificado e complexo. Há uma revolução tecnológica em curso e, como diz a música de Paulo Ricardo, vivemos em revoluções por minuto, em uma sociedade de crescimento exponencial. Ao passo que o mundo se torna mais complexo, ao mesmo tempo se torna mais simples. Antes, uma jornada de ônibus de Cruz Alta a Porto Alegre durava 12 horas, hoje apenas 5. Antigamente, deixava-se recado em diferentes locais para achar alguém. Hoje, com o celular, as pessoas estão ao alcance do dedo.

Era improvável fazer uma reunião pela manhã em São Paulo, uma pela tarde no Rio de Janeiro e voltar para Porto Alegre para dormir em casa. Não é mais.

Quem se imagina sem luz elétrica, geladeira, televisão, internet, celular, avião, carros? Como cunhou Macluhan, os homens criam as ferramentas e as ferramentas recriam o homem. Estamos nos transformando, nos adaptando a esse admirável mundo novo, de tecnologia, de melhoria da qualidade de vida, de satisfação pessoal, de facilidades, mas, ao mesmo tempo, crescemos em insatisfação quase na mesma velocidade.

Se o sinal 3G demora mais que 20 segundos para carregar, o mundo desaba. Malditos satélites, levam 20 segundos para fazer uma informação circular pelo globo terrestre e chegar na palma da mão! Atrasou 20 minutos o voo, é o caos. Porcarias de aeroportos, aviões e tecnologia de controle de clima, que farão eu levar 2 horas para chegar à São Paulo e não mais 1h40min.

Tornamo-nos impacientes, insatisfeitos, reclamões. Acostumamo-nos aos benefícios da indústria e da tecnologia. Incorporamos tão rapidamente essas funções que nos recriamos ao ponto de não sermos tolerantes a nenhuma falha ou demora. Um segundo perdido é uma eternidade. A tecnologia recriou a civilização, desmaterializou o mundo e nos fez pessoas impacientes e insatisfeitas. Se o mundo oferece tudo, porque eu não posso ter aqui, agora?

Quanto maiores as mudanças, mais fácil se torna nossa vida. Porém, mais insatisfeitos ficamos, mais ávidos por velocidade nos tornamos. Eric Hobsbawm, famoso pela quadrilogia “Era” (“A Era das Revoluções”, “A Era do Capital”, “A Era dos Impérios” e “A Era dos Extremos”), se ainda fosse vivo muito bem poderia ter escrito o gran finale, “A Era da Insatisfação”. #ficaadica para algum escritor faturar um dinheiro com essa ideia. Mas seja breve, pois estou com pressa.