Tássia escreve a cada 15 dias, sempre nas sextas-feiras.
Sobre verdades


Tenho pensado muito sobre passado, presente e verdades. Vou explicar porque ando filosofando sobre. Tudo começou devido a minha grande tendência de me culpar. Me culpo por não ter o tempo que eu gostaria de ter para as pessoas que amo, por sentir sono e precisar dormir com tanta coisa por fazer, por nunca conseguir zerar minha lista de tarefas, por comer quando não estou com fome - apenas por ansiedade, por faltar compromissos, por deixar a casa bagunçada e por aí segue o baile. Mas a culpa que me levou a pensar sobre verdades é a de ver meus sentimentos pelas pessoas, lugares e situações mudando da água para o vinho com o tempo. O engraçado dessa história toda é que de tanto pensar sobre essa culpa eu já até me curei, ou seja, parei de me culpar. Vamos aos exemplos para eu me fazer entender melhor.

Já perdi as contas de quantas melhores amigas tive nesses anos todos. Inclusive já escrevi um textão daquelas típicos de Tássia para todas elas, agradecendo a existência e passagem ou permanência de cada uma delas na minha vida. Algumas foram melhores amigas por fases: ensino fundamental, ensino médio, da outra cidade, da praia, da faculdade, etc. Outras eram para ser para a vida toda, afinal, elas eram essenciais para mim.

Portanto, quando elas se afastavam, eu sofria muito, eu não entendia, não aceitava. Até que outra amiga, ao me consolar, me disse uma verdade: amizades são relacionamentos que, assim como namoros, podem dar certo por um tempo e depois não mais, ou podem virar casamento e serem felizes para sempre. Quando entendi isso, parei de me culpar e passei a aceitar os términos. E o que era verdade sobre aquelas amizades, e foi por muito tempo, já não era mais, e tudo bem.

Da mesma forma tive as minhas várias galeras. Aquelas turmas inseparáveis de encher a foto de cabecinhas sorridentes. A turma da praia, a gang de cada ano no colégio, a equipe das empresas que trabalhei e gostei, a panela da faculdade. O meu desejo era de que essas turmas jamais se dissolvessem. Acontece que as vidas tomam caminhos diferentes. Começa com um casando com uma noiva ciumenta, outro indo morar no interior, um casal se separando e alguém saindo do grupo, outro que faz novos amigos. O que fica são as boas lembranças dos bons momentos e do afeto entre todos. Mas já não tem mais espaço para reencontro. E tudo bem, apesar da saudade.

E então surge o trabalho mais legal do mundo. Aquele primeiro entre eles em que você pensa: “Uau, tenho muita sorte. Trabalho com meus amigos, me divirto, tenho qualidade de vida, confio nas pessoas, exerço atividades que me dão prazer”. Até que aquele em que mais você confiava lá dentro te decepciona. E o amigo que virou colega, depois de vacilar contigo, virou desconhecido. E o amor que existiu pelo amigo e pelo trabalho, foi verdade, mas já não é mais. Seguem outros trabalhos, novos sentimentos por colegas, chefes, lugares. E muitas declarações de amor a sua rotina e a tudo que a cerca. Posts e mais posts nas redes sociais. Verdades quando foram feitos, mas hoje, quando aparecem como lembranças no Facebook, já não são mais; já não seriam compartilhados de novo com um coração e #saudades.

Não é assim nos namoros também? Quem você jurou amor eterno há poucos meses simplesmente não se encaixa mais na sua vida? Você amou de verdade, sofreu com o término, mas aí, passado um tempo, olhou para as fotos e não sentiu mais nada.

Como li em algum lugar por aí: “as verdades são absolutas, até que se tornem relativas”. O que foi dito e vivido em todas as situações não foi mentira no momento vivido. Se hoje você odeia algo ou alguém, não significa que não o amou. Se despreza, não significa que não admirou. Se quer distância, não significa que não quis estar perto. Só que o que no passado fez sentido, hoje não faz mais.  O grande segredo é saber que tudo está sujeito a mudanças. Que você não foi falso porque seu sentimento mudou. Ele foi verdade e o que você sente agora também é. Mas a maior verdade de todas, por que não dizer absoluta, é que todas essas verdades relativas servirão – e muito – para te ensinar. E no fim das contas, tudo bem se for só isso o saldo final. Porque só isso é muita coisa.