Tássia escreve a cada 15 dias, sempre nas sextas-feiras.
Você já conseguiu fazer o que gosta hoje? Saiba por que, afinal, eu caminho lendo

Só pelo título você já deve estar pensando: “Lá vem a Tássia reclamar da falta tempo de novo!”. Tá, não deixa de ser um pouco isso, mas a verdade é que não vim apenas reclamar, vim propor uma solução. Não é nada inteligente só reclamar sem fazer nada para mudar, não é mesmo? Pois bem, como não consegui achar a equação para aumentar o número de horas no dia, achei meios de otimizar meu tempo. Mas, por favor, não questione aqui o quão absurdos possam ser meus métodos. Entenda, por gentileza, que foi a única saída que encontrei.

Aqui no bairro, há uns bons anos, o pessoal já me reconhece na rua por eu ser a menina que caminha lendo. Devo ter apelidos, inclusive, mas não ligo. Explico: tenho a mania de ler enquanto caminho. Leio livros e revistas, na maioria das vezes. Aproveito o caminho até a parada de ônibus, até o trabalho, ou de qualquer ponto A que se ligue ao ponto B e tiro o livro da bolsa para lê-lo. E, acredite, nesses anos todos nunca pisei em nenhum obstáculo indesejado no caminho, nunca tropecei, nunca caí, nunca fui atropelada e nem nunca atropelei ninguém (que permaneça assim, Senhor). Obviamente, ao atravessar a rua, paro e olho para os lados, e quando vou percorrer longas distâncias em linha reta, observo alguns metros à frente, atenta a carros que podem sair ou entrar da garagem ou possíveis assaltantes (se roubassem o livro até que eu não ficaria tão chateada, desde que eles lessem). E aí você deve estar se perguntando: “Mas, por que Diabos essa menina lê enquanto caminha? Não tem um ipod para ouvir música, não? Não pode ler em casa?"

Respondo começando pela última pergunta: não, não posso ler em casa, porque geralmente, quando chego em casa, só me resta tempo de jantar, tomar banho, arrumar a bagunça do quarto e dormir para acordar cedo no outro dia. Quando eu penso em ler à noite, basta uma página para o sono me vencer. Resposta 2: não, não tenho mais ipod, pois emprestei (pelo visto eternamente) para o meu namorado e não sinto falta de ouvir música, por enquanto. Sim, todo mundo é um pouco estranho, né? Resposta 3: por fim, caminho lendo porque são esses minutos que sobram para eu fazer uma das coisas que mais gosto, ou seja, ler. E não pensem que não lamento isso. Lamento, sim. Queria muito poder deitar no sofá e ler sem dormir. Mas a exaustão da semana sempre vence. Acho triste eu ter que fazer o que mais gosto de um jeito tão precário. Ter que ler de pouquinho em pouquinho tendo que dividir a atenção entre livro e imprevistos da rua. Dia desses, uma senhora me parou para me elogiar: “Que linda você lendo, tão lindo isso, só vejo jovens em celulares pela rua. Você é um exemplo a ser seguido”. Agradeci sorrindo e poupei ela dos meus pensamentos, afinal, ela não iria me elogiar se soubesse o real motivo pelo qual leio caminhando.

E, sério, isso vai ficar ainda mais assustador. Aproveito para ler em outros momentos também. Se estou secando o cabelo, sento na cama, cruzo as pernas e coloco a revista em cima delas para ler enquanto aquele ventinho quente percorre meus fios de cabelo. Antes disso, quando saio do banho, faço o mesmo. Coloquei um porta-revistas no banheiro. Assim, quando lavo o cabelo e vou demorar mais porque tenho que passar creme pós-banho e fazer todo meu ritual de cabelos cacheados, coloco uma das revistas na pia e fico lendo. Leio também enquanto tomo meu copo de leite e, às vezes, até enquanto faço exercícios físicos. Só não leio quando realmente deveria ler.

Mas, afinal, qual é o método de otimização de tempo que encontrei? Lamento decepcioná-las, mas não é nada inovador e nem aconselhável, é apenas o velho e bom “não perca tempo”. Filas de banco, salas de espera de consultórios médicos, espera para entrevista de emprego, ônibus, viagens de avião, manicure - enquanto ela faz meus pés são meus favoritos. Não sei em que momento do seu dia você está lendo esse texto, mas espero, sinceramente, que não seja caminhando por meio do seu celular. Prefiro que seja algo como, sei lá, enquanto alguém que você “adora”, tipo sua sogra, está falando sobre a ex do seu namorado e você finge que escuta e lê esse texto - que pelo menos é mais interessante que o bate-papo com a naja, né?