Cris escreve todas as sextas-feiras.
Voltar pra casa é bom!

-      Mãe, olha ali o bombeiro. Um dia eu vi os bombeiros apagarem o fogo com a mangueira de água.

-      É mesmo? Quando foi meu filho?

-      Um dia desses.

-      E onde foi, meu amor?

-      No quartel general dos bombeiros, ora! Mãe, olha aquele homem correndo. Ele tá indo pra academia pra ficar forte.

-      Filho, acho que ele está indo pegar o ônibus. Viu?! Ele entrou naquele ônibus ali.

-      Ai, mãe! Estou com tanta saudade de casa. Voltar pra casa é bom (…)  Eu também gosto daqui de Caxias porque tem a avó e ela sempre me dá presentes, porque diz que eu trato ela bem.

-      Sim meu filho, é importante tratar bem as pessoas.

-      Eu ajudo ela a fazer as coisas e ela me dá presente.

-      Mas meu filho, a gente não trata bem só pra ganhar presentes, a gente trata bem porque é legal e é assim que deve ser.

-      É mãe, pra ganhar camiseta, pijama e presente. Ah, mas o bom mesmo é voltar pra casa!

 

As crianças costumam ser donas de uma imaginação comovente. Neste exato momento, em que abri o meu computador para escrever alguma coisa, tive a sorte de me deparar com uma cena que comprova o que estou dizendo. Estou no ônibus a caminho de Porto Alegre e na poltrona ao meu lado está uma mãe com seu filho no colo.

A cada nova experiência visual que ele se depara através da janela, uma frase salta de seus lábios, com aquela voz suave e que ainda não pronuncia corretamente as palavras, sendo que algumas é privilégio da mãe entender, funciona como um código entre eles.

Em mim, fica um sentimento de alegria e tranquilidade. É tão único ouvir uma conversa despretensiosa entre mãe e filho. Tão bom saber que existe diálogo entre duas pessoas pertencentes a mundos distantes. O mundo de um menino de quase três anos e de uma mulher que está na casa dos quarenta.

Digo isso, pois normalmente nas minhas viagens semanais de Caxias do Sul a Porto Alegre e vice e versa, ouço os pais mandando os filhos ficarem quietos e só, sem papo, mas com muito choro. Essa cena que acontece ao meu lado, é uma cena que prova o quanto pode ser produtivo estimular esse tipo de convivência, que com certeza traz harmonia para a relação e os tornam cada vez mais cúmplices.

O menino, que mal começou a vida, nos presenteia com uma pequena gota de sabedoria, já sabe o quão bom é voltar pra casa. Essa frase é de uma amplitude tamanha que as crianças simplesmente sabem, e vai muito além do ato em si. A volta pra casa já motivou grandes histórias épicas, novelas, filmes, livros. Voltar pra casa é bom e traz no cerne o aconchego, a calmaria, aquele fechar de olhos sem pressa para acordar quando os raios de sol invadem o quarto.

Voltar pra casa é resgatar as raízes, buscar conforto na nossa própria história e na de nossos antepassados. Voltar pra casa é restabelecer as forças, deitar na cama, no colo de quem a gente ama, ganhar um cafuné do destino, assistir um filme até adormecer, deixar a roupa suja no cesto do banheiro sem se preocupar com o dia seguinte.

Voltar pra casa é voltar para nós mesmos, para o nosso ponto de partida e transformá-lo, também, em ponto de chegada. Mas não se engane, não voltamos a estaca zero, voltamos com uma bagagem de experiências só nossa, nosso crescimento ou derrocada está ali.

Por mais que o endereço mude, que a vida mude, que a família mude, voltar pra casa continuará sendo uma das melhores coisas da vida. Exatamente como disse nosso sábio pequeno amigo,  pelo simples fato de que é bom voltar pra casa!