Primeira-dama da simplicidade

A simplicidade está estampada em seu rosto e em suas atitudes. Basta trocar algumas palavras nos primeiros cinco minutos com a primeira-dama do Rio Grande do Sul, Maria Helena Sartori. Em uma entrevista exclusiva ao Negócio Feminino, para a série ‘Mercado de Trabalho’ desta semana, ela contou um pouco sobre a sua trajetória.

Negócio Feminino: Conta para gente como a política entrou na tua vida?

Maria Helena Sartori: Isso foi no movimento estudantil, quando comecei a militar. Foi um período difícil, de ditadura nos anos 1970. Nessa época, tudo era difícil. Para ter uma ideia do quanto isso era cerceado, o Chico Buarque veio fazer um circuito universitário no Rio Grande do Sul e precisamos levar a letra das músicas que ele tocaria no show ao Quartel e só assim foi liberado. Isso é para dar uma dimensão do momento no qual nós vivíamos. A própria Universidade de Caxias estava sofrendo intervenção. O nosso reitor foi uma pessoa que, para nossa sorte, foi nomeado como interventor, foi uma pessoa de muito diálogo.

Nessa época, casei com Sartori, mesmo período em que ele foi eleito vereador pela primeira vez. Tivemos nossos filhos em anos eleitorais também. Faremos 39 anos de casados em julho, sendo que por 36 ele esteve envolvido com a política ininterruptamente. Ela sempre esteve em mim. Em um determinado período, fui professora. Participei, em 1979 e 1981, da greve do magistério, também fui diretora do CPERS de Caxias do Sul.

NF: Na época que a senhora ingressou na política, como foi a reação da sua família?

MHS: As mulheres têm que participar da política, eu a vivi também como Presidente do PMDB. O problema é que as pessoas olham apenas por um lado, acham que é destaque estar em uma posição. Mas quem é da família, eles que, na verdade, cresceram com o pai na política, e agora vinha a mãe. Então em toda eleição sempre tem os que são a favor e os que são contra. Mas sempre vivenciaram muito isso. E eu acho que o Marcos estava assim na adolescência. “Puxa, falaram do meu pai e agora vão falar da minha mãe”. Como que é isso, né. Mas depois ele superou, teve até um momento em que ele quis ir para a política, mas já desistiu. Mas eu acho que isso é uma coisa que acabou sendo natural, a minha participação, no sentido de que eu tinha uma experiência de acompanhar e coordenar as campanhas do Sartori e discutir política com ele. Porque a gente vinha em um movimento desde a questão estudantil.

NF: E como tu concilias a vida pessoal com toda essa trajetória?

MHS: Na verdade, a vida pessoal a gente quase já não tem mais. Eu e o Sartori, os dois envolvidos aqui, é o nosso dia a dia. É preciso lidar com os compromissos que temos. A família e os filhos ficaram em Caxias, então, a gente tem que se encontrar nos finais de semana, falamos muito por telefone, eles já são adultos. Por isso que eu digo que a mulher, em um determinado momento da vida, que as coisas podem acontecer com mais facilidade. Quando se tem um bebê é muito mais difícil, você tem que ter com quem deixar. Eu sempre brinco que o homem, quando sai para trabalhar, ele fecha a porta da casa e tchau. Não que ele não tenha compromisso, ele tem uma função. A mulher que trabalha sai pensando quem é que vai levar os filhos no médico, como eles vão para escola, quem busca ele no esporte que ele está praticando, está sempre ligando para lá e para cá, se chegou, se foi, se não foi, porque nós carregamos isso dentro de nós. É instintivo. É natural. A minha atuação na política chegou num momento que meus filhos também já estavam encaminhados. Teve um momento que me doeu o coração. Eu nunca vou me esquecer de um sábado pela manhã...

NF: Como deputada em Caxias, contribuiu para várias ações sociais. O que elas representam para ti, Maria Helena, como mulher?

MSH: Implantamos diversas oficinas e cursos profissionalizantes para as mulheres. E uma das coisas mais bonitas, foi ver tantas mulheres nos cursos de corte e costura que, normalmente, estão em situação de vulnerabilidade social, precisando de emprego. Os depoimentos são maravilhosos, é muito bonito ver a evolução. Um dia eu estava entregando o diploma para uma formanda, era uma sexta-feira final de tarde, e quando eu entreguei o diploma ela me disse: “este diploma, segunda-feira, estará lá na empresa, porque eu já tenho um emprego”. Isso nos dá a dimensão e nos faz perceber que o que fazemos é tão pouco. Nós apenas articulamos. Mas, em contrapartida, para quem recebe, significa muito.

NF : Que recado tu deixas para quem está entrando no mercado de trabalho? 

MHS: O ser humano se realiza através do trabalho. Escolher o que gosta e buscar disso. Muitas vezes, as pessoas escolhem uma profissão pensando no retorno financeiro. Outros escolhem o que realmente gosta e que vai realmente fazer bem. Então eu acho que tem uma diferença. Normalmente o empreendedor, ele quer fazer.

Amanhã, na editoria de Carreira, o NF fala sobre as profissões mais promissoras para as mulheres.