Escritora na essência

Tai Nalon é formada em jornalismo pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Trabalhou como Repórter para o jornal A Folha de São Paulo, para a revista Veja e como freelancer para revista Piauí. Foi editora-assistente na Rede Globo Online e é fundadora da start-up Aos Fatos. Na iniciativa de verificação multimídia, atualmente trabalha como diretora e editora executiva. Ela está essa semana, 4 a 8 de abril, na ESPM-Sul para participar da “Semana do Jornalista” da ESPM-Sul. Tai nos concedeu essa entrevista exclusiva, confere.

Negócio Feminino - O que te levou a escolher a profissão de jornalista?

Tai Nalon - Queria ser escritora. De livros. Ainda quero, na verdade, mas, aos 16 anos, acreditava que o jornalismo me permitiria criar laços com pessoas influentes, que poderiam facilitar esse caminho. Tem algum fundo de verdade nisso, mas, quando era novinha, não parecia que o que me faltaria seria tempo para isso.

NF -   Qual o papel desse profissional em meio a tantas mudanças na forma de comunicar?

TN - Os jornalistas não têm mais o monopólio da informação, mas ainda têm o domínio do método. Isso significa que eles ainda são mais qualificados para atestar o que é confiável e o que não é. Espero que isso não se perca em meio à mais recente crise de financiamento do ofício. Reportagens de teor questionável sempre existiram, mas, quando a falta de perspectiva expulsa talentos das redações, o prejuízo é do pensamento crítico e da independência.

NF -  Atuando em veículos tão tradicionais, como a Folha de São Paulo, revista Veja e Rede Globo Online, quais os maiores desafios profissionais e até pessoais que enfrentou?

TN - Comecei na Folha em 2008, num ambiente que estimulava a crítica e a contestação. Mas isso mudou muito, e não é particularidade do veículo. A vulnerabilidade financeira das empresas jornalísticas e as demandas do tempo real na internet precarizaram a função do repórter. As lideranças nas redações, por limitações financeiras ou gerenciais, evitam apostar em inovação. O que se tem é um ofício que virou, com raras exceções, mecânico, previsível e de olhar viciado.
 

NF -  Aos Fatos é uma ONG que busca a verdade política. O que te motivou criá-la e o que te move mantê-la?
 

TN - Não somos uma ONG. Somos uma microempresa. Desde que cobri as eleições de 2010, como redatora de política da Folha, acreditava que um projeto do tipo tinha potencial para virar, quem sabe, um blog. No ano passado, depois de algumas negativas, percebi que a ideia tinha um potencial maior e capacidade para ser independente. Fato é que ganhou dimensão tão grande, que empresas que antes desconfiavam desse tipo de inovação se interessaram.
 

NF - Como tu concilias a tua vida pessoal com a profissional?
 

TN - Acho que nunca houve uma separação muito clara. Saí da faculdade quando já existiam redes sociais. Ferramentas de uso pessoal viraram plataformas de promoção profissional. Não há mais fim do expediente. Soma-se a isso o fato de o noticiário de política em Brasília ter acelerado muito desde 2013. Não há horário pro breaking news. E no Aos Fatos estamos às vezes até em fusos horários diferentes. Sérgio e Rômulo estão circunstancialmente nos EUA, um em cada ponta, então os horários são bem malucos também. 
 

NF - E a família, no meio desse turbilhão de atividades, como fica?

TN - Tenho muito apoio da minha mãe, mas desconfio que a maior parte das pessoas da família não faz ideia do que ando fazendo. No jornal, era mais fácil explicar.
 

NF - Que conselheiros tu daria aos jovens que estão iniciando uma profissão e até empreendendo?

TN - Que nada é definitivo. As certezas sobre o jornalismo que existiam dez anos atrás, quando eu estava na faculdade, não existem mais. E aposto que, daqui a dez anos, as certezas que algumas pessoas têm agora cairão por terra.

NF - Qual a importância de participar da “Semana do Jornalista” na ESPM-Sul?

TN - É uma boa oportunidade de discutir os rumos do jornalismo num ambiente em que as pessoas estão realmente interessadas em saber de inovação, ética profissional, tecnologia.

Rapidinhas 
Quem é Tai Nalon? Jornalista e vascaína, não necessariamente nessa ordem.
Uma referência? Vários: Hunter S. Thompson e Elio Gaspari, por exemplo.
Uma frase? O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos. É da Simone de Beauvoir.
Um livro ou um filme? A Idade da Razão, do Jean-Paul Sartre.
Se fosse um animal, qual seria? Nunca pensei nisso, mas acho corujas legais.