Eva Sopher? Sim, conheço

Quem nunca ouviu o nome de Eva Sopher? É arriscado, mas certamente quem escuta sabe exatamente quem ela é. Sim, é a mulher que levantou o Teatro São Pedro, em Porto Alegre. Ou melhor, ela fez muito mais do que isso. Em um papo sério com o Negócio Feminino, Dona Eva contou um pouco sobre a sua vida. Não perde.

Negócio Feminino – Quando começa a sua história?

Eva Sopher – A minha história começa muito antes do que é dito. Eu era jovem, cheguei no Brasil em 1937 quando meu pai decidiu nos salvar das câmaras de gás dos campos de concentração. E escolheu São Paulo como a futura cidade. Comecei a trabalhar, eu achava que era recebida não por ser mulher, mas por ser algo diferente: jovem e feminina. Naquela época, os cidadãos recebiam engravatados. Abri a minha vida assim.

Viemos para Porto Alegre porque meu marido foi transferido em 1960. Comecei a trabalhar jovem com a PROARTE. Me tornei conhecida como dona Eva da Proarte, muito antes de ser conhecida como a dona Eva do teatro são Pedro.

Em 75, recebi o convite para assumir a coordenação da restauração do Tetro São Pedro. Na hora neguei por estar envolvida com tantas iniciativas culturais. Mas resolvi aceitar para não derrubar o Teatro São Pedro.

NF - Como a senhora lembra do são Pedro?

ES - O Teatro estava caído...  Inclusive eu tive uma violinista coreana no palco quando despencou uma peça na mão dela. Seria impossível viver naquele lugar, e me mudei para a Assembleia Legislativa. Fui abrindo os espaços, porque não hiaviam. Naquele tempo não existia uma lei de incentivo à cultura, mas o sentido da cidadania. A pessoa me dava o que pedia porque era visível que era preciso. Quando a Lei surgiu, comecei a ter dificuldade para essa arrecadação porque as empresas queriam saber quanto voltava para ela.

NF - Como a senhora percebe a cultura no RS?

ES - É uma teimosia de quem ainda existe e insiste em fazer cultura. É difícil, não tenho dúvida. Cada vez mais. O Multipalco é outra pura e absoluta loucura minha. O dia em que eu me tornar o Fantasma da Ópera, igual vou incomodar quem ficar. Temos uma equipe eficiente e eles vão levar adiante esse trabalho de desenvolvimento da cultura.

As pessoas me conhecem pelo jornal e por entrevistas. Que pena não ser pelo Teatro. É isso que estamos tentando fazer. Temos oficinas de dramaturgia, filosofia, ações para integrar a sociedade ao Teatro São Pedro, incrementando a cultura às pessoas.

NF - O que o trabalho significa para a senhora?

ES - A vida. A saúde. Especialmente a mente saudável. Venho de uma família longeva em que não tiveram doenças graves, mas se eu parasse, quem sabe minha cabeça teria enferrujado. Essa é uma lição que tento passar adiante, mas é uma questão de educação e cultura. Antigamente as mulheres eram criadas para serem esposas.

NF - Mas na sua geração, a senhora pegou o caminho contrário?

ES - Acho que eu sempre fui pelo caminho contrario. Eu sempre rompi as fronteiras, meus pais ficavam loucos. Hoje as mulheres não precisam mais esconder o que querem fazer. Talvez essa falta de vergonha na cara seja mais conhecida, porque até então foi sempre escondida. Nesse momento em que tudo deveria ser pessimismo total, eu enxergo isso de uma maneira positiva. Assim como tá não pode e não vai continuar. Pobre dos jovens que passarão por um período complicado. Eu não vou passar, mas sinto pelas minhas duas filhas, meus quatro netos e sete bisnetos.

NF – E o que a família representa para a senhora?

ES - Tudo. São as duas coisas que me seguram, família e trabalho.

NF - Que mensagem passa as mulheres?

ES - Esqueçam de serem taxadas como inferiores. Demonstrem que podemos ser superiores em todos os sentidos.

 

Imagem de Liege Freitas