Simone Leite, uma mulher de fibra

Nascida em Estância Velha, já morou em Canoas e agora em Novo Hamburgo. Para a presidente da Federasul, Simone Leite, a Região Metropolitana é uma grande São Paulo. Uma típica mulher de negócios, não poderia ter outra opinião. Formada em História e em Administração, assume o cargo sendo a primeira mulher a comandar uma instituição predominantemente masculina.

Em uma entrevista exclusiva ao portal Negócio Feminino, Simone, mãe de dois filhos, conta um pouco de suas convicções.

Negócio Feminino – Tu atuaste como professora por um bom tempo. Como migrou para a área de negócios?
Simone Leite -
Essa questão de sala de aula me fascina, só que a questão financeira não é muito boa, já que a remuneração de um professor é baixa.  Eu almejava algo a mais pra mim, buscando uma qualidade vida melhor. Acabei indo trabalhar na empresa do meu pai durante alguns meses e percebi o quanto era legal e me identificava com aquilo. Foi, então, que busquei uma qualificação.

NF - Hoje, tu és empresária e uma empreendedora. O que não é fácil...
SL -
A gente sabe que não é fácil, mas temos vocação pra isso. Vocação para empreender, então a gente empreende. E no Brasil, em minha opinião, a própria escola forma funcionários públicos, não há empreendedorismo na nossa base escolar – o que é algo que deve ser incentivado.

Percebemos quantos empresários, quantos empreendedores que, muitos até sem informação na realidade, mas com uma veia empreendedora, conseguiram ter sucesso.

NF – Nessa tua trajetória, percebestes muitas coisas, não?
SL –
Sim! Quando eu casei, fui morar em Canoas e segui nessa questão de empresária. Percebi que a gente precisa muito trabalhar unido. Que as minhas dificuldades são as dificuldades do meu concorrente, mas não só do meu concorrente, mas do meu fornecedor, do meu próprio cliente. Identifiquei no associativismo uma forma de poder trabalhar integrado. Busquei participar na cidade de Canoas e lá eu sofri o preconceito por ser mulher.

Canoas é uma cidade muito masculina em função da indústria, da eletroeletrônica, com um viés mais masculino. No primeiro momento, eu me dei conta de que sim, o Rio Grande do Sul é um Estado machista e nós precisamos ocupar mais espaços, mas com uma certa dificuldade para que isso acontecesse.

NF – Nesse momento, como tu te sentias?
SL -
  Em todos esses meus desafios e a cada momento que eu me sentia fragilizada, em função do preconceito, aquilo me dava uma energia pra seguir em frente.

NF – Neste momento te tornou a primeira mulher presidente da CICS. Como foi isso?
SL -
Pra mim foi uma grande alegria e uma grande honra, mas também foi um grande desafio. Tinha que entregar um bom trabalho, porque tinha todo aquele olhar: “uma mulher que está na presidência”. Mas tivemos um êxito muito grande. Durante dois anos trabalhei com uma diretoria muito bacana, formada por jovens, por mulheres, por homens, por isso que eu acredito muito nessa integração, homem e mulher se completam.

NF – E como percebes isso?
SL -
A característica do homem é diferente da característica da mulher. Na nossa empresa, eu vejo que nós temos nos cargos de liderança homens e mulheres e há um complemento no trabalho de cada um. Uma mais voltada pra questão humana, o outro mais voltado pra questões concretas. É um olhar diferente sobre o mesmo cenário.  Quando surge um problema, sentam os homens e as mulheres juntos para tentar identificar a melhor forma de resolver e cada um consegue completar o pensamento do outro.

NF – Tu falas que a tua arca é INTEGRAR
SL –
Sim. Todos os lugares que eu estou e sempre que eu estou à frente de um projeto, essa é a marca da Simone Leite: INTEGRAR. Integrar o homem, a mulher, o jovem, a pessoa com mais experiência. Integrar aquele microempreendor, o médio, o grande empresário, porque tudo isso é uma sinergia e cada um pode atuar em alguns segmentos.

NF – O quanto essa igualdade é fundamental?
SL -
Eu lamento algumas coisas no feminismo. O que é o feminismo? Eu sou feminista. Tive a oportunidade nos últimos anos também de palestrar sobre esse tema. Justamente para que a gente possa fazer com que as mulheres reflitam sobre o que é o feminismo. O feminismo, em minha opinião, é só igualdade entre os gêneros. É a gente poder disputar, estar numa questão de igualdade, enfim...

Eu passei por uma eleição na Federasul onde o concorrente era um homem. E nós tínhamos igualdade para disputar, não era por ser homem, ele tinha mais poder e eu por ser mulher a fragilidade ou usar essa questão do feminismo. E nós discutimos ideias. Um gênero e outro gênero.

NF – Até combinar com a eleição da primeira mulher à presidência da Federasul.
SL -
Mais do que isso! É a primeira vez que a gente tem uma pessoa do interior que tem possibilidade de assumir. Porque nesses últimos 88 anos de história da nossa entidade, sempre foram empresários de Porto Alegre. E isso amplia e fortalece muito o sistema dentro do nosso Estado. Então, eu acho que é muito bacana isso.

NF - E a marca Simone Leite vai junto?
SL - 
Sou muito intensa no que eu faço. Não sou centralizadora, eu delego, só sei trabalhar em grupo. Então, tem um grupo muito bacana que tá muito entusiasmado pra fazer um trabalho legal. O que é um trabalho que a gente pode entregar, né? Justamente unir os empreendedores, mostrar quais são os gargalos do Rio Grande do Sul para o empreendedorismo e que a gente tenha espaço para ampliar as nossas cadeias produtivas. A gente tem um sufocamento da atividade produtiva hoje, a questão da burocracia que impera, a questão da tributação que é muito complicada. Mas há a possibilidade de discutir e oportunizar junto aos nossos políticos, administradores, legisladores, algumas oportunidades para que o Estado avança ainda mais e a gente consiga fazer com que o empreendedorismo seja marca do nosso Estado.

NF – Tu concorreste ao Senado, pretende continuar na política?
SL -
Agora eu estou presidente da Federasul e quero poder fazer um bom trabalho. O futuro a gente não pode prever muito.

NF – O que tu falarias para as mulheres que estão empreendendo ou que desejam empreender?
SL -
Eu diria o seguinte “coloque muita emoção no que faz.” Pra mim são três palavras que me motivam e que fazem eu seguir em frente. Fé. Fé naquilo que a gente é capaz de fazer, fé na mudança e no resultado que a gente constrói. Principalmente para sociedade porque empreender não é algo só pra si. Primeiro porque é para a família. Depois para sociedade porque tu tá envolvendo mais pessoas. Coragem, coragem de assumir, coragem de acreditar nos seus sonhos. E paixão pelo que faz.

NF - Fé, coragem e paixão?
SL -
Fé, coragem e paixão. Porque se tu estás muito estimulada, porque se tu estás gostando daquilo que faz, se tu fazes com entusiasmo, todos os dias tu consegues um bom resultado. O resto é consequência. Se eu quero fazer, eu vou buscar meios para ter resultado de sucesso. O que muitas vezes acontece é essa questão da própria faculdade, buscar cursos de profissionalização, de ter outros sócios, pessoas que possam completar aquela minha deficiência, ou aquilo que eu não sou tão boa. Mas se tu estás decidida a fazer, o resto é consequência.

 

Rapidinhas:

Quem é Simone Leite? É uma pessoa apaixonada pela vida, por tudo que faz, uma pessoa muito carismática. Que consegue ter boas relações pessoais e conquistar então, o que já se conquistou. 
Uma referência? A minha mãe
Uma frase? São tantas, né. Ninguém cometeu erro maior do que aquele que não fez nada só porque podia fazer muito pouco.
Um livro ou um filme? Ai, um livro ou um filme... então, nossa, e agora, gente... Um livro:  1822 foi um livro bacana. Eu sou péssima pra guardar nomes. O livro que eu estou lendo agora é: Uma Parisiense em qualquer lugar do mundo. Eu acho que faz uma referência.
Se fosse um animal, qual seria? Uau! Eu seria um passarinho. Porque eu adoro viver livre. Adoro voar, estar na estrada, isso é muito meu também. Ter asas. Liberdade

 

 

Imagem por Sérgio Gonzales