Caroline escreve mensalmente, sempre nas terças-feiras.
A cultura do elogio

Tudo na vida se transforma, se modifica, evolui e se adapta. Algumas questões para melhor, outras nem tanto. Não sou uma pessoa velha, mas estou longe de ser novinha. Durante a minha infância convivi com diferentes perspectivas de vida: tanto o urbano, educado e refinado nos jantares de queijos e vinhos que a minha família servia, quanto o rústico, despretensioso, afável e, ao mesmo tempo, extremamente direto e rígido em seu linguajar de fazenda. Assim, cresci conhecendo diferentes tipos de educação e liderança.

Anos mais tarde, já no mestrado em comunicação, deparei-me com as mais modernas teorias de comunicação organizacional, com leituras como Chanlat, Restrepo e Fayard, entre outros. Esses teóricos traziam uma abordagem moderna sobre os indivíduos e as organizações, diferentes perspectivas, processos e metáforas para enxergar as pessoas como seres humanos, não apenas como mão de obra.

Acredito que podemos resumir tudo isso em uma mudança de vocabulário ocorrida nas empresas de hoje. O funcionário (segundo o dicionário, “aquele que exerce, desempenha função”), na nomenclatura, foi substituído pelo colaborador (também no dicionário, “o que colabora ou que ajuda outrem em suas funções”). Porém, não foi apenas a definição que mudou. Ao longo dos anos, dentro da mutação social e das rápidas transformações, os funcionários passaram a acreditar que não estavam mais nas empresas para desempenhar uma função, mas para colaborar e ajudar. E quem colabora não possui a obrigação e o dever de executar uma tarefa, fazendo-a por vontade, amor e prazer. Aliás, o colaborador só irá ficar na empresa se estiver “superfeliz e motivado”.

Com a cultura do colaborador, exige-se, após toda e qualquer tarefa, um elogio, uma estrelinha (como na época de colégio), por se fazer apenas o básico, o trivial, aquilo para o qual foi contratado. É difícil hoje um gestor receber um trabalho de um empregado sem que tenha de tecer elogios a ele, mesmo que o resultado tenha sido muito abaixo das expectativas – nesse caso, espera-se que elogiemos a atitude, o empenho, o tempo dedicado e, depois, gentilmente, solicitamos para que tudo seja refeito.

Atualmente é assim: mesmo as obrigações do dia a dia precisam ser enaltecidas. O gestor, ou melhor, o líder, deve sempre estar motivando sua equipe para ela fazer o básico, o arroz com feijão, de forma correta. A cultura do elogio impregnou as empresas de funcionários mimados, que não podem escutar um “não” e que esperam sempre receber parabéns e estrelinhas e com isso deixamos de desenvolve-las e prepara-las para as frustrações e fracassos que fazem parte dos melhores profissionais.

Tudo na vida se transforma, se modifica, evolui e se adapta. Algumas questões para melhor, outras nem tanto.