Uma mistura perigosa

Você chega no trabalho chorando e conta para todos os seus colegas sobre a briga que teve com o marido mais cedo? Você deixa o celular ligado 24 horas por dia e atende a telefonemas inclusive durante um passeio em família? Você cancela compromissos profissionais porque está com problemas em casa? Você responde a todos os contatos – email, facebook, instagram, whatsapp e etc – no meio do seu horário de trabalho? Se a resposta for sim para algumas dessas perguntas acima, temos um problema.

Ninguém é insensível a ponto de achar que você não pode ter dias ruins por conta de uma dificuldade amorosa, ou que não pode, em hipótese alguma, resolver problemas de sua responsabilidade mesmo fora do horário comercial. O problema mora na frequência com que isso acontece. A advogada Samantha Fischer conta que a família alertava para o excesso de exigências da chefia, mesmo fora do horário de trabalho, mas ela achava que fazia parte do processo de crescimento. “Após um tempo, me dei conta de que meu horário com amigos e família eram sagrados e isso não poderia envolver minha profissão, fosse por pedido do chefe ou por demandas de clientes”, conta, explicando que, mesmo que sua atividade exigisse mais atenção aos clientes, nada justificava viver apenas para eles.

César Pritero, representante comercial, também preferiu colocar alguns limites desde muito cedo. Foi quando a empresa mandou produzir seus cartões de visita e, quando os recebeu, percebeu que o telefone celular que constava era o seu particular. “Quando alguém escolhe divulgar esse número, não vejo problemas, mas não foi o caso. Ninguém perguntou se poderia colocar ali meu telefone pessoal.” O resultado foi a exigência de mandar rodar todos os cartões novamente.

O inverso também é igualmente perigoso. Nem todos dentro do seu ambiente profissional precisam saber de toda sua vida ou, menos ainda, serem envolvidos nela. Fazer um amigo ou outro é natural e até saudável, mas isso não deve incluir toda a turma. Kátia Silveira, empresária do ramo estético, conta que precisou dispensar uma funcionária quando todos começaram a reclamar que não queriam saber tantos detalhes da vida da colega. “Até momentos da vida íntima acabávamos sabendo, sem precisar perguntar. Essas situações começaram a gerar constrangimento. E pior, ela era ótima profissional, mas nem todos os avisos e conversas foram suficientes para dar uma pausa”, revela.

De acordo com uma pesquisa feita pela consultoria Robert Half, 60% dos entrevistados de diversos países, fofoca e colegas desagradáveis são os maiores causadores de situações de tensão no ambiente de trabalho. Para o diretor da Robert Half para a América Latina, Ricardo Bevilacqua, o resultado reflete o fato de que os brasileiros são mais cordiais entre si e, muitas vezes, misturam temas profissionais com pessoais, o que pode resultar em desconforto e fofocas.

E você, quais são os seus limites entre vida pessoal e profissional?