Regras e mais regras

Pode parecer liberal demais, mas existe uma grande diferença entre impor ordem no ambiente de trabalho e criar regras estúpidas e desnecessárias. A conexão entre paixão, performance e resultado é vital para a saúde de uma empresa, mas nem todos os gestores enxergam dessa maneira – infelizmente. Exigir certas coisas torna o local uma prisão, o que, consequentemente, faz com que os colaboradores não se sintam confortáveis no lugar onde passam a maior parte do seu dia.

Empresas que exigem comportamentos de robôs, sem ao menos considerar a evolução do mundo e da sociedade, estão paradas no tempo e correndo sérios riscos de perder bons profissionais por conta da rigidez. Ser mais flexível ou dar importância apenas para o que realmente influencia na produtividade do funcionário não significa tornar a empresa um “oba oba”, significa olhar com mais atenção para o colaborador, já que é ele quem ajuda a máquina a girar.

O caso de Anita Caberlon, que era assistente administrativa em uma empresa de médio porte, não é raro, mesmo em 2015. Além dos horários rígidos, incluindo compensações de 15 minutos quando se atrasava (mesmo que isso fosse raro), ela era submetida a regras que considerava desnecessárias. Por exemplo, Anita nunca escondeu que era fumante, como faziam muitas de suas colegas. “Quando alguém da diretoria me viu com um cigarro na parada de ônibus, ou seja, fora do meu horário de trabalho, foi passado um email para todo mundo informando que era proibido fumar nas imediações da empresa, considerando um raio de 100 metros. Além disso, não era permitido fumar com o uniforme da empresa”, conta, ainda com certa revolta.

Para a psicóloga Caroline Delanni, é preciso lembrar que certas regras podem ser consideradas necessárias em uma empresa e exageradas em outras. Como exemplo, ela cita as recepcionistas que usam perfume: se o local for um hotel, não há problemas, mas se envolver uma clínica para gestantes, a história é outra. De qualquer forma, deve-se pensar sempre com bom senso, segundo ela: “A principal consequência poderá ser criar um ambiente de trabalho penoso e desconfortável. Acabar tendo funcionários insatisfeitos com seu local de trabalho”, pondera.


Mulheres sofrem mais

Quando o assunto é a exigência com a aparência, as mulheres acabam pagando o pato. É evidente que certo cuidados precisam ser considerado, como o uso do cabelo solto em hospitais ou restaurantes, mas para tudo tem limite. “Por mais que o uso de salto alto possa ser elegante, profissões que exigem longos períodos em pé podem não só ser desconfortáveis como podem trazem sérias consequências para a saúde”, alerta a psicóloga.

Regina Alves, 37 anos, foi gerente financeira de uma empresa pequena por dois anos. Foi o tempo máximo que aguentou certas regras. “Uma das que me deixava mais irritada era não poder falar da vida pessoal. Não, isso não era orientação, era regra. Além disso, não podia trabalhar de calça jeans, nem sapatilha. Nada de unhas pintadas de vermelho, cores chamativas ou cara lavada”, recorda.

Caroline diz que, ao analisarmos as mudanças que o mercado de trabalho tem sofrido nos últimos anos, alguns aspectos já estão evoluindo nesses casos. Ela lembra que, hoje em dia, é possível encontrar lojas onde a maior parte dos funcionários possuem um visual mais alternativo, com tatuagens à vista, por exemplo. “Acredito que as mudanças em determinados segmentos se deve à perda de bons funcionários que não se enquadravam nos parâmetros exigidos”, reflete.

Segundo a psicóloga, o limite entra regras desnecessárias e exageradas e manter a empresa em ordem é identificar o que atrapalha ou é inadequado ao local de trabalho. “São situações que precisam ser levadas em conta na hora de se criar regras para os locais. Proibir um funcionário de fumar na frente da empresa ou de ter uma tatuagem não é algo que possa atrapalhar o ambiente de trabalho ou o rendimento dele”, comenta.