Ansiedade, o mal do (meu) mundo


Houve um tempo em que, quando um possível empregador perguntava um defeito, a resposta saía quase que automaticamente: “Perfeccionista”. Ora, hoje, muitos admitem que era só uma armadilha (a qual os profissionais de RH detectaram rapidamente) para transformar a palavra numa qualidade. Hoje, ouço muito candidatos e até amigos que se oferecem para vagas se dizerem ansiosos. Ao ouvir o adjetivo repetidas vezes, comecei a notar que esta seja, talvez, a palavra do momento, mas na mesma linha do perfeccionismo.

Preciso admitir que, no momento seguinte ao de escutar isso de um postulante à minha equipe, é quase um “blá blá blá whiskas sachê”, já que, enquanto o indivíduo à minha frente se esforça para me impressionar, eu só consigo questionar mentalmente: será que esta pessoa sabe o que realmente significa ser alguém ansioso? Será que ela sofre tanto quanto eu? Será que ela acha bonito se atribuir uma característica como esta? Será, será, será? Bem, o fato é que EU não acho nada legal viver com isso. Então, dali por diante, mal consigo prestar atenção na tentativa, na maioria das vezes constrangedora, de se sair bem em uma entrevista de emprego.

Já tem quase uma década que faço psicoterapia – e, mesmo que alguns digam que não poderia ser diferente, pois sou filha de psicóloga, já adianto que meu pai e irmão não o fazem, então, não me venham com rótulos familiares. A primeira vez que procurei ajuda foi exatamente por ter enfrentado, na época sem saber dar nome, um quadro de crise de ansiedade generalizada, considerada pelo psiquiatra da ocasião como um princípio de pânico. Bem, depois desse episódio, muitos outros vieram, com formas, momentos e intensidades diferentes, mas, finalmente, com acompanhamento profissional.

Como o meu objetivo na coluna de hoje não é fazer propaganda de psicóloga alguma (ainda que eu ache a minha maravilhosa e a minha mãe mais ainda), voltemos ao que, de fato, vim dizer. Peço, encarecidamente, que parem de usar este termo para generalizar algo ou, pior ainda, para tentar transformar isso em uma qualidade. Por já conviver com crises de ansiedade há algum tempo, converso sobre isso com diversas pessoas, tenho muitos e muitos relatos semelhantes ou não aos meus e, por isso, posso reforçar: apenas parem.

Ser ansiosa não faz apenas com que eu me sinta mal em alguns momentos, mas se reflete em tudo na minha vida. Tudo mesmo. E uma das principais consequências, no meu caso, é querer fazer 50 mil coisas ao mesmo tempo, e que só eu acho que vai dar certo. Pior do que ter a intenção de, é acreditar piamente que vou conseguir. E quase nunca consigo, claro. Resultado? Angústia, frustração, sentimento de culpa, e por aí vai.

Não preciso apenas gerir um negócio com uma mistura de cautela e ousadia, ou ser uma líder presente nas solicitações da minha equipe, clientes, fornecedores, fontes, parceiros e etc. Quero montar com calma as aulas que faltam gravar, entregar a coluna no prazo, vivenciar o crescimento da minha sobrinha, estar perto dos afilhados, não deixar de ver os amigos, não faltar a nenhum evento familiar. Também quero estruturar as palestras nas próximas duas faculdades, estudar o tema de um painel do qual serei mediadora no Interior, manter a casa limpa e arrumada, cuidar do cabelo e das unhas e conduzir um movimento de casais com o qual me comprometi. Ah, quero, ainda, fazer o tratamento correto de um problema recém-descoberto nas pernas, ajudar o marido em um momento crucial para ele, não esquecer de pagar alguma conta, finalizar o lançamento da nova revista e começar a preparar a próxima.

Tentando me achar o máximo por fazer tudo isso? Não. É óbvio que muitas dessas demandas, ainda que reais, vão ficando pelo caminho, em segundo ou terceiro planos, deixadas de lado, ou algo parecido. Para quem tem receita de bolo para tudo na vida vai dizer que é só aprender a dizer não, é só resignificar o que é urgente do que é prioridade. Palestras motivacionais ou livros de autoajuda não faltam hoje em dia. Fácil, né?

O que eu sinto não é bom, não é legal, muito menos bonito. Passa longe de ser frescura, teatro ou exagero. A verdade é que a ansiedade, na minha vida, não está ligada ao que os outros pensam ou esperam de mim – aliás, eles quase nunca me cobram ser assim. Tem mais a ver com o que EU quero. E eu quero tudo isso. Ao mesmo tempo. Não apenas por desejar, mas por acreditar verdadeiramente que eu consigo. O problema é que só eu acho que vai dar certo. E nunca dá.