Tássia escreve quinzenalmente.
Dizer “não”, porque sim


Não sei quanto a vocês, mas em relação a mim, dizer “não” sempre foi algo muito difícil. Acho que sempre encarei a palavra como agressiva, ofensiva. Dizer “não” para um amigo, familiar, colega, na minha cabeça, era o mesmo que dizer “não me importo contigo”, o que, obviamente, quase nunca corresponde à realidade. Só que essa minha incapacidade de dizer “não” estava me causando muitos problemas pessoais e profissionais, e aquilo que costumo chamar de “gestão da frustração”, pois eu dizia mais “sims” do que era capaz de administrar. Por conta disso, como diria Rita Lee, “um belo dia resolvi mudar”. Mais especificamente pelo final de 2016.Com a ajuda de uma amiga, comecei a ensaiar os “nãos” que eu espalharia por aí. E estes, consequentemente, seriam os “”sims” que eu diria para mim.

Se uma amiga me convidasse para sair, mesmo que eu tivesse me planejado para fazer outra atividade aquela noite, eu ficava sem jeito de dizer que tinha outros planos e cancelava o compromisso comigo mesma (ou com outros amigos mais flexíveis) e acompanhava a amiga na festa que ela queria. Quando um colega de trabalho perguntava se eu tinha como fazer um favor, eu fazia, e as tarefas da minha pauta iam acumulando pelos “nãos” que eu não dizia para as tarefas que não necessariamente era minhas. Se um superior pedia para eu fazer algo a mais, quem sou eu para dizer “não” para um chefe? Eu fazia. Meu plano era economizar, mas um convite para almoçar fora do trabalho com colegas ou amigas queridas, como negar? Quando mais novinha, eu nunca conseguia dizer “não” de cara para um guri mala que ficasse me incomodando em uma festa. Eu não ficava com ele, mas demorava para dizer o “não quero e não me incomoda mais”. Ingênua eu por achar que em festa também dava para ser educada e simpática e ser interpretada apenas como tal. Todos esses “nãos” que eu não dizia, me roubavam o que eu tinha de mais precioso: o tempo.

Resumindo: mais peso na consciência do que dizer “não”, é dizer “sim” quando se queria dizer “não. É ir numa festa que toca uma música que a gente não gosta, com um público que é não é da nossa vibe, e ficar de cara amarrada, quando bastava dizer “não vou, porque não gosto”. Eu me recordo de que costumava dar desculpas, inventar outros compromissos, porque achava que a verdade não bastaria, até porque eu era facilmente manipulada, chantageada. Hoje bato o pé e digo “não”, até sorrindo se for preciso. Que raiva que dá dizer que sim, somar mais uma tarefa, e depois ter que fazer a gestão da frustração por não conseguir dar conta da pauta e ter que fazer horas extras.

Como gerenciar o sentimento de culpa e o desejo de aceitação ao dizer para um colega que não vai poder “quebrar essa”? O que ele vai pensar de mim? Que não ajudo, que não tenho espírito de equipe e cooperatividade? E para o chefe? Ele vai pensar que sou daquele tipo de funcionário que é enrolão, pouco produtivo e limitado?

O que nos impede de dizer “não” é um conjunto de fatores, como os dos citados acima – sentimento de culpa e desejo de aceitação – assim como, medo de parecer mal-educado, ingrato e egoísta. Quando trabalhamos cada um deles, entendemos que dizer “não”, não dói, nem nos outros (afinal, quantos “nãos” ouvimos quando crianças e superamos?) e nem em nós. E depois do primeiro “não”, a gente vê que mais que uma palavra ruim, ela pode significar libertação, leveza. Cada “não” que se dá, é um peso a menos nas nossas costas. Cabe a nós saber que “nãos” dizer. Porque hoje em dia também há uma frase rondando empresas: “o não sempre vem antes”. Sendo assim, use o bom senso. Avalie quando seu “não” pode ser usado e quando o “sim” deve entrar em cena, pois saber usar “não”, não é usá-lo indiscriminadamente, e sim, assertivamente.

E para fechar esse artigo, fica aqui uma frase de Bill Cosby, uma provocação como convite à reflexão: “Eu não sei qual o segredo do sucesso, mas o segredo do fracasso é tentar agradar todo mundo.”  (Bill Cosby)