Tássia escreve a cada 15 dias, sempre nas sextas-feiras.
Um profissional, um chefe de família: é tudo uma coisa só

 

Ao sermos preparados para ingressar ou aspirar cargos mais altos no mercado de trabalho, ouvimos com frequência o seguinte conselho: “deixe os seus problemas pessoais em casa”. Se você jogar no Google o tema “vida profissional X vida pessoal”, ainda vai ler artigos e matérias com dicas como esta: “é preciso saber adequar os problemas de casa com o dia a dia no trabalho para que o desempenho não seja afetado”. Separar a vida profissional da pessoal é uma das qualidades mais valorizadas no bom profissional. Ou era. Felizmente algumas empresas já se deram conta de que este modo de pensar está falido. Essas empresas mais evoluídas em termos de gestão de pessoas, entenderam que o ser humano é único e seus lados pessoal e profissional são indissociáveis, que a vida pessoal afeta sim a vida profissional, e que isso não é vergonha nenhuma e nem demérito.

Dito isso, não estou desqualificando o profissional que separa bem os dois lados. Se ele é capaz de o fazer e se sente confortável com isso, tudo bem. O que não pode é esse comportamento ser imposto como padrão, de forma que o colaborador que demonstrar que não está tudo bem consigo seja tachado com adjetivos como fraco, sem profissionalismo, imaturo, problemático. A pergunta é: ele se tornou um mau profissional porque chorou no trabalho, porque precisou resolver problemas pessoais e se ausentar algumas horas, porque está com semblante entristecido há alguns dias?

Quando comecei este texto, logo me veio um lampejo. Pensei: “Ué, mas por que estamos sempre cuidando para que a vida pessoal não interfira na profissional se a vida profissional nunca pede licença para interferir, e muito, na pessoal? ”. Nada justo, certo?

Quem me conhece sabe o quanto sou preocupada com o bem-estar das pessoas no ambiente de trabalho. Creio que não é à toa que fui trilhando minha carreira em endomarketing. Não concebo um trabalho como motivador e engajador se as pessoas não se sentirem felizes nele. E felizes aqui se caracteriza por: confortáveis, alegres, reconhecidas, compreendidas e acolhidas. Só assim as pessoas entregarão mais valor no que fazem e a empresa sairá ganhando com isso de forma intangível e tangível. Partindo desse pressuposto, se me preocupo com o bem-estar das pessoas, logo, preciso me preocupar com elas como seres integrais que são, e não meros executores de tarefas. Não somos os robôs por quem querem nos substituir, mas, muitas vezes, somos tratados como se fôssemos.

Ao longo da minha caminhada pelas várias empresas por quais passei, vi muita gente fingindo que estava tudo bem quando, na verdade, não estava. A vida pessoal estava um temporal e a vida profissional um terremoto. Como executar bem suas atividades no trabalho se sua cabeça não desliga dos problemas financeiros que você não sabe como resolver? Com que cabeça trabalhar se você está lutando contra os fantasmas internos de uma depressão? Ou se seu pai está hospitalizado? Se você está no meio de um luto, um divórcio, uma doença grave? Como estar 100% presente no trabalho sabendo que negligenciou a si mesmo em várias ocasiões?

A recíproca, é  claro, também verdadeira. A sobrecarga de trabalho interfere na vida pessoal, visto que não existe mais tempo para si e para sua família e amigos. Como praticar esportes estando exausto física e mentalmente de tanto trabalho? Como ter paciência para ouvir os familiares e amigos e suas banalidades com tanta coisa por fazer e pensar? Como arrumar a casa se mal conseguiu arrumar a caixa de e-mais?

Mas e qual é a solução para os dois lados? Que tal nos enxergamos mais como humanos, com necessidades básicas fisiológicas e mentais. Pessoas que precisam trabalhar, cuidar dos afazeres domésticos e compromissos familiares, dormir, relaxar, se divertir, chorar? Colegas e líderes precisam saber que por trás de um cargo há um João e uma Maria e suas vidas lá fora com conflitos e conquistas. Pais, filhos, cônjuges e amigos precisam saber que por trás do João e da Maria existe um médico e uma delegada e suas vidas profissionais cheias de pressão e responsabilidade. Empatia, afinal. Equilíbrio. Se disseminarmos essa visão humanista, quem sabe melhoramos nossas casas e nossos locais de trabalho e isso não se torne um sonho tão distante.