Sara Bodowsky: onde cada roteiro é único

Com um sorriso simpático, é muito fácil se encantar com ela. Sara Bodowsky, ou, simplesmente, Roteiro da Sara. Há pouco mais de seis meses no ar, já acumula mais de meio milhão de acessos, sendo o quinto blog mais acessado da Rádio Gaúcha. É mole? A melhor parte disso tudo, é que a produção é todinha dela. E sem dificuldade nenhuma, porque os maiores prazeres da Sara são comer, beber e viajar. Ainda vai virar roteiro de filme... Confere esse papo gostoso com o NF em um café, óbvio.

Negócio Feminino: Conta um pouquinho de como surgiu o Roteiro da Sara.

Sara Bodowsky: Eu sempre tive uma sensação de que todo dia precisava ter prazer. Sentia essa necessidade em algum momento do meu dia, fosse lazer, ócio criativo, enquanto comia ou tomava chimarrão na Redenção. Eu precisava desse momento. Uma coisa que eu faço em casa, meu roteiro de casa, é pegar um bom vinho e o meu celular, ir para a sacada e ouvir uma música no meio das minhas plantas olhando a rua. Quando eu consigo fazer isso, uns vinte ou trinta minutos, já me recarrega. Sempre fiz isso porque sempre defendi que tu tinhas que ter um momento que fosse teu, e que tu pudesses fazer uma coisa legal. Como taurina que sou, adoro viajar e comer. Adoro comer bem, seja alta gastronomia, seja comida caseira. Mas ela tem que ser saborosa e bem feita. E beber. Em especial, o vinho. Eu gosto muito do vinho. Ele faz parte da minha vida.

NF: Tu fizeste cursos de sommelier?

SB: Eu fiz duas viagens e, em Flores da Cunha, há um ano, fiz um curso de Sommelier. Eu acho que foi mais ou menos ali que começou o Roteiro da Sara. E, agora, na minha última viagem para Sicília, foi a segunda parte do meu curso, que é de formação. Eu não me intitulo sommelier, apesar de eu ter este título. Sommelier é alguém que deve estudar sempre, alguém que precisa aprender o tempo todo. E a minha função não é essa, eu sou uma jornalista que quer entender de vinhos como uma jornalista, e não como outra coisa. Eu sempre fui muito ativa nas redes sociais e, quando viajava, recebia muitos comentários, eram as fotos mais curtidas e acessadas. Ganhava mais pessoas do que perdia. E chegou uma hora em que as pessoas, eu estou falando do meu público de rádio e televisão que eu não conhecia, começaram a ir aos lugares que eu ia e me pediam dicas. Adivinha, chegou uma hora que eu não conseguia mais dar muita dica, não conseguia responder para todo mundo. E também comida. Eu ia num lugar, descobria um restaurante diferente e postava no Instagram. Depois tinha um monte de gente que escrevia “eu fui, eu fui!”.

NF: Nessa época tu não estavas mais na TV, certo?

SB: Isso foi no mesmo tempo em que eu sai da TV e fiquei apenas na Rádio Gaúcha de tarde e na CBN pela manhã. Nessa época pensei: “Eu passei por vários lugares, eu já tenho um nome. O que eu vou fazer para ser feliz?”. Se eu trabalhar feliz eu terei qualidade para mim e para os outros. Não acredito em fazer meia boca, ser infeliz. Aí eu pensei em fazer um blog.
Na CBN entra um link nacional a cada meia hora, e eu ouço muito e há muito tempo eles falam de gastronomia, de viagens e de vinhos. Aqui não tem isso. Foi quando desenvolvi um projeto, onde o Roteiro da Sara é a minha marca, apresentei para a Rádio Gaúcha e viramos parceiras. O blog fica na Rádio Gaúcha, eu posso fazer matérias, eventos, enfim, uso a Rádio Gaúcha e a Rádio Gaúcha pode usar da Sara, no sentido de representar. A gente se representa.

NF: Então o Roteiro surgiu de uma paixão, de um desejo teu. Uma coisa informal que se transformou no teu trabalho...

SB: Exato. Quando eu viajo, é para comer e para beber. Claro que para outras coisas também. Sou muito grata ao Ciro Martins, que é o nosso diretor de Jornalismo. Ele me apoiou e me deu total liberdade editorial. Eu até me emociono, às vezes a gente esquece de agradecer, sabe?

NF: A que tu atribui esse sucesso?

SB: Muito trabalho. Vai parecer clichê, tá? Mas quando tu colocas amor em uma coisa, ela cresce. Não tem como não ser. E tem outra coisa, os lugares que eu mais quero fazer, acabo indo por último. Sou muito criteriosa quando eu faço o post, sabe. Eu não consigo rever na hora em que publico. Daí, depois, eu reviso o texto e as tags. (risos)

NF: Se fosse possível elencar cinco pontos que tu avalias para entrar no Roteiro, quais seriam?

SB: Muito subjetivo. É o feeling. É olhar e saber que preciso contar para as pessoas. Eu sou muito coração. Sou muito intuição. E penso sempre: eu gostaria de ler sobre este lugar? Ou, eu gostaria de ir nesse lugar se alguém me indicasse? Eu vou nesse lugar, conto do meu jeito, meio ingênuo às vezes. Falo muito, mas não consigo descrever muito sobre as minhas emoções. Eu gosto tanto de uma coisa que eu não sei descrever ela, mas eu sinto. Uma coisa que eu uso muito é “bah, fiquei emocionada”. Porque comida me emociona, vinho me emociona. Uma viagem me emociona. Por isso falo de comida e viagem. Gastronomia e viagem. Porque as duas coisas estão muito juntas, andam muito juntas.

NF: Algum momento inesquecível?

SB: Eu peguei um carro lá na Sicília (e super barato. Eu também procuro por isso, não precisa ser caro para entrar no Roteiro. Eu vejo e dou a dica). Onde eu parei? Ah, estava contanto que peguei um carro e queria ver umas cidades que tinham. De repente, estou andando e vejo uma cidade medieval, pequena. Cara, eu olhei aquilo e fui. Eu levei meu celular, ativei ele lá, estava com o Waze. Dirigi até lá. A cidade estava vazia, era horário de almoço. Sentei numa rocha e fiquei olhando para tudo. Só eu, mais ninguém. Deixei o carro e fui andar. Entrei num castelo e, como eu postei no meu Facebook, faltavam olhos, sabe? Era muita coisa para o meu olhar sozinho. Aí eu comecei a chorar... Eu não acreditava que estava lá, que estava vendo aquilo, que incrível este mundo. Viajar é terapêutico.

NF: No que o Roteiro está trazendo de benefício, de gratificação para tua carreira, para tua vida como jornalista?

SB: Hoje, o Roteiro da Sara é a Sara. Eu não deixo ninguém postar. Ele me traz muito trabalho, porque eu estou em cinco programas da Rádio Gaúcha com a minha marca, com o meu nome. Fora meu blog, o Instagram e o Twitter. O que vai para o ar, vai para o blog também. Eu faço boletins diferentes porque conheço o público de cada programa. Falta um pouco ainda de organização, sempre luto contra o caos. Mas é aquela máxima de que quando tu fazes o que ama, não sente. O Roteiro da Sara ajudou a ser ela mesma.

NF: Quem é a Sara?

SB: Eu sou muito transparente. Me definir é muito difícil. Sou alguém que gosta muito de viver. Sou muito agradecida à vida, por comer e beber. Já tive mais momentos difíceis na minha vida, mas hoje eu aprendi que o tempo passa. Nada é eterno. A dor não é eterna, os problemas não são eternos. E, às vezes, na ansiedade, a gente quer atropelar as coisas. Tudo é tão pequeno perto da gente. Acredito na ideia de amar, isso porque tenho muito amor pelas pessoas e pelas pequenas coisas. Talvez a Sara seja uma pessoa que queira amar mais, e o Roteiro da Sara permite isso. Eu acredito muito na força desse amor, sabe.

NF: Uma frase?

SB: Não tenho uma frase porque eu acho que ela mudaria todos os dias.

NF: Uma referência?

SB: Como eu sou multitarefa, eu não tenho uma frase, uma referência. Eu tinha muito definido essas coisas, mas descobri que as pessoas não são perfeitas. E me agrada pessoas imperfeitas, que são sinceras, que são reais. A sinceridade é uma força. A gente precisa se permitir, se tratar bem, ter amor pela gente. Precisamos disso tudo para ser melhor para os outros. O nosso maior boicote é a gente mesmo, nós é quem damos o limite e o significado para as coisas. Precisamos ter autoconhecimento, entender e se curtir. Tudo são escolhas nossas, podemos fazer diferente. O Roteiro da Sara foi isso, sempre quis algo dentro do jornalismo em que eu pudesse mostrar a minha cara. Estou muito feliz nesse meu momento. A melhor parte é essa, a melhor Sara é essa.

NF: Como está tua vida pessoal?

SB: Nesse momento eu estou solteira, o que facilita. Isso também é uma coisa interessante. Porque eu já tive muito conflito por ser uma pessoa que gosta de viajar. A pessoa que desejar estar comigo, hoje, tem que respeitar e ser parceiro. Existem muitas pessoas assim, claro. Mas já é um filtro automático. Eu sempre gostei de me envolver com pessoas que gostam de viajar, mas nem sempre isso é possível.  Eu saio muito. É difícil, eu não penso sobre isso. Mas eu não estou conciliando, eu estou vivendo.

 

Imagem: Jefferson Carnelutti